Bom Jesus
Vila é uma maneira bucólica de se referir ao que hoje se tornou um aglomerado urbano de trinta mil habitantes. Bucolismo canhestro — ah, que linda a poesia pastoral, escrita em homenagem à vaquinha no pasto! Uma cidade pequena, mas uma cidade. E uma cidade, por menor que seja, é muito diferente do campo. Confusão comum no Bom Jesus, quando seus filhos vão fazer faculdade em Niterói e costumam se orgulhar por terem vindo da roça. Bom Jesus não é uma roça há muito tempo. Não é roça porque carroças andam na rua junto com carros, isso se vê em Parelheiros e em Campo Grande. Não é roça porque todos se conhecem, porque meninos são ensinados desde cedo a montar e meninas a procriar. E machos não fodem cabras, se é que um dia foderam, deve ser lenda. E de onde vem a lenda de que ter nascido no campo confere alguma dignidade de caráter? De onde vem a associação campo e simplicidade, campo e humildade? Vejo, ao contrário, outras associações: campo e pessoalidade, campo e coronelismo: venha a mim em amizade, honre a família, pertença ao círculo e nobre será.
Ter um fogão a lenha em casa é sinal de bondade, vê se pode. Nenhum horror pode ser praticado por quem mata a fome com lenha em brasa. Não. É sinal de caráter. Nascido e criado na roça, só pode ter alma grande. Roça que se contrapõe à cidade, mas dela depende para não morrer soterrada; roça cujo solo só presta a cimentar o progresso urbano, um pleonasmo, porque progresso só tem uma face e ela na inteireza urbana. À máxima rural: “se o campo não planta, a cidade não janta”, responde-se: “janta, sim, é só importar da colônia. Plantação é economia primária, é subdesenvolvimento, é colonial, é monocultura escravocrata. Grite independência e industrialize-se; custe o que custar, mas desgarre-se do passado rural, soterre-o. É a diferença na Secessão. Vitória do Norte, da indústria, da abolição, da luz. O campo vira cidade e o progresso avança com a ciência a iluminar as trevas. À tradição resistente e suas lavouras arcaicas, os tratores do cimento e do progresso”.
Ora, latifundiários são pródigos em se passar por homens simples do campo, trabalhadores braçais, cortadores de cana, com mãos talhadas, o corpo gasto e a alma sofrida, coisas que eles não são e não têm. Um dia, há de chegar o dia, hei de incendiar a Sociedade Rural Brasileira com pelo menos cinquenta fazendeiros dentro. Cana e soja vão arder no fogo. E será um mísero revide ao fogo que eles ateiam na natureza — porque natureza é floresta, não é pasto. Escravocratas filhos da puta. Monocultura, resquício colonial. Agora aqui quem vos narra outra vez, sou eu, o filho querido, Lucas.
O Bom Jesus é uma vila incrustada no sul do Espírito Santo. Um lugar que faz calor o ano inteiro e em janeiro é insuportável. Um lugar onde as pessoas subsistem as suas vidas simples e se orgulham de viver assim, simples e frugais. Amigas presenteiam-se umas às outras com suas iniciais emolduradas em elogios, fincadas na placa a ser decorada ao lado da galinha de barro em qual aposento do casebre? É claro que na cozinha. L, de lutadora; U, de única; C, de carinhosa; I, de íntegra; e A, de amiga. Como alguém ainda pode arvorar unicidade em tempos em que o tempo mói personalidades? Lúcia nunca recebeu uma placa com o acrônimo de suas falhas: L, de leviana; U, de umbilical; C, de capricorniana; I, de ingrata e A, de autopenitente. As três primeiras qualificações são passíveis de revisão e as duas últimas cabem a tu julgar.
No Bom Jesus dos anos 1990 não se tem mais pencas de filhos para ajudar na lida, porque o arado pouco carece de mão de obra humana e porque as mulheres agora querem ser mais do que só mães. É a brisa da modernidade que parece ter soprado depois de três gerações, tal como minha bisavó Etelvina havia previsto. Mas por aqui ainda se vê carroças atravancando o trânsito, leiteiros a equilibrar baldes de alumínio na garupa da bicicleta, padeiros que batem de porta em porta com a cesta atravessada no ombro e indiscretos passarinheiros, essa gente, tudo macho, que vive de rolo de curió, pintassilgo e picharro, faturando um trocado com canto de pássaros engaiolados que se soltos fossem, dizem os gaioleiros, morreriam. No Bom Jesus, é raro, mas de vez em nunca se vê um bode desgarrado tombar motos e, todos os dias, vê-se bicicletas concorrerem com pedestres na calçada. É um Bom Jesus de comércio minguado, de pouca concorrência e alguma variedade, a disputar a clientela pela antiguidade, porque no final das contas, se ali não se acha de tudo um pouco, ao menos se acha o necessário. Há óticas e farmácias, e farmácias há várias, todas com um sobrenome a conferir credibilidade. É a do Souza, do Garcia, do Amaral. Há revendedoras de marcas consagradas no ramo das camisetas polo, dos calçados, dos perfumes e até dos chocolates. Padarias, deve haver umas três ou quatro e em todas elas compra-se pão por dez centavos e perde-se quando muito cinco minutos na fila, a não ser quando velhas amigas se reencontram e há uma chance razoável de a conversa se abrir a quem vem atrás. Mas são só padarias. Vendem vários tipos de pão, doce e salgado, bisnagas, cacetes e até sonhos, e vendem café, café com leite ou só leite, integral e desnatado, e nada mais. Não são confeitarias. Não vendem quiches, bolos para festas ou tortas salgadas. Tortas salgadas são encomendas da Dona Neide porque há cinco décadas nenhum concorrente conseguiu desbancar. Bolo de cenoura com cobertura de chocolate toda dona de casa faz e chama a vizinha para comer. Costureiras que trabalham em casa há várias. São donas de casa que um dia fizeram de suas Minervas um ofício e mesmo hoje trabalhando fora não desaprenderam a arte. Outras casas oferecem reforço escolar e outras ainda, as mais humildes, serviços gerais, como pintura, marcenaria, consertos de sapato e liquidificador e sacolés por um real, sabor de manga, maracujá e limão. Clínicas de fisioterapia há duas; academias de ginástica, três; salões de beleza, quarenta, a maioria dos quais atende à domicílio e as manicures aproveitam a situação para oferecer produtos da Avon e Herbalife, apesar desta segunda ter despencado no prestígio depois que a empresa ficou difamada pelo esquema de criação piramidal de novos milionários. Viagens de cruzeiro ficaram muito populares e dá para dizer que hoje concorrem com o turismo católico que excursiona a Aparecida e aos passos de Anchieta no mesmo feriado de Corpus Christi. Daqui também saem em agosto caravanas lotadas de homens varonis sem camisa, calça apertada, fivela à mostra, laços e esporas para o festival de Barretos; em toda a minha vida confesso ter visto só duas ou três cenas mais ridículas: vaqueiros se atrevem sobre damas indomáveis, ariscas no laço.
As praias mais próximas são Marataízes e Piúma e logo depois Guarapari, mas Guarapari é para riquinhos mimados. Aluguéis de temporada continuam sendo importante fonte de provento para os que adquiriram suas casas de veraneio na década de sessenta, quando o progresso ainda não havia enobrecido o metro quadrado e quando poucos, além dos geógrafos, saberiam dizer o que é gentrificação. Depois de tantos verões aproveitados, afinal, talvez nem tantos assim, dinheiro importa mais que lazer, e assim os aposentados não perdem a chance de ganhar um extra já que de descanso estão fartos.
A rede de supermercados é dominada por uma só família, os Tebaldi, e de algum tempo para cá passou a oferecer entregas à domicílio para compras acima de cem reais. A medida, todavia, embora não de todo inócua, não parece ter cativado as donas de casa, a clientela mais fiel a que um comerciante no Bom Jesus pode se dar ao luxo de conquistar. Essas senhoras gostam de vir ao mercado duas vezes ao mês, faça chuva ou faça sol, para comparar preços, tirar dúvidas esotéricas no caixa e, se por um lado, lamentam a proibição de entrada com cães, deixando-os amarrados no poste, por outro se esquecem por completo do bicho e chegam a passar uma hora perdidas em meio a tantas escolhas e justamente por isso, pela dificuldade em escolher, saem com o carrinho cheio, deixando gorjetas magérrimas aos jovens que fariam ótimo uso delas se fossem austeros, mas que preferem viver; jovens que estão ali no primeiro emprego e acabam ficando, na ausência de perspectiva, o mercado está tão difícil lá fora que é melhor se agarrar ao que tem.
É verdade que essas senhoras fazem muitas perguntas, mas gastam. Para elas, ir ao mercado é uma rotina marcada no calendário, há o dia certo para ir, um dia às vezes aguardado até com ansiedade. “Hoje, terça-feira, é dia de mercado” — escrevem no autorecado preso ao ímã de geladeira. — E vão, sem falta. Essas senhoras, podemos chamá-las de Cacilda, Etelvina, Aparecida e Lourdes, nomes que estão por todos os lugares, mas que desapareceram na última geração, essas senhoras não se deixam enganar pelas promoções imperdíveis e são mais fiéis às marcas. Uma vez que escolhem uma, até podem trocar, amiúde o fazem, a depender do preço e da avaliação da vizinha, mas cedo ou tarde retornam à opção anterior, a que vinha dando certo, seja na farinha, no macarrão, no açúcar, na salsicha ou no própolis. Neste ponto também são menos sovinas que os maridos, cujos gostos em uníssono por cerveja os fazem economizar em todo o resto.
“Pare de quantificar tudo em cerveja” — reclamou Cacilda com o seu bronco, como se cerveja fosse moeda.
E por isso elas preferem se encarregar das compras, para que não falte tudo e sobre cerveja, para que haja de tudo um pouco, inclusive cerveja. São estas as nossas senhoras, humildes e envaidecidas, enrubescidas com os elogios recebidos pela gestão primorosa da dispensa, pelo que não deixam faltar, mesmo sem amor e carinho. Cargo proposto e incorporado à devoção. É tudo o que sempre foram e fazem com atenção, a gestão doméstica. É o que as define: ser dona do lar, obediência à pressão do gênero.
É fato interessante, de volta ao assunto anterior, o papel que o álcool exerce no dia a dia da cidade. Conheço poucos lugares, com certeza os há, que conciliam tão bem um catolicismo férreo entranhado com a bebedeira que enaltece os que aguentam mais. Há até concursos de resistência ao porre, cuja premiação é paga, adivinhe, em cachaça — e ainda que até hoje nenhum vencedor tenha reclamado a batina, todos, do primeiro ao último lugar, comparecem religiosamente aos domingos na missa das nove, tão dignos de misericórdia. Álcool e fé se intercalam na demarcação dos papéis sociais. Assim como embriaguez e aventura confundem-se com macheza, compostura e temperança confundem-se com feminilidade. Desprezo tais papéis dados, idiotas. Da forma como foram erguidos por uma sociedade, podem ser sucumbidos por outra. Ousaria invertê-los, mas prefiro destruí-los. Quero que saibam o quanto a fineza enoja e a vulgaridade excita, para que sejam as putas dos seus sonhos, sem a pretensão de me agradar; não quero putas ao meu agrado, senão ao seu; putas reais, que me oprimam, porque estou farto de damas delicadas, cujo personagem instiga-me a maltratar, quando idealizo, ao contrário, ser maltratado.
No Bom Jesus, as empresas que sobrevivem à fase de aprovação, que pode durar até dois anos, dificilmente quebram, porque é um comércio pessoal, no qual o público parece disposto até a relevar a qualidade em nome do coleguismo. É por isso que as novidades aqui enfrentam a dificuldade maior da desconfiança, uma concorrência desleal. Não chegam franquias. Os estabelecidos não precisam inovar para se manter em vantagem; eles já passaram no teste de confiança e venceram. Seus clientes são seus amigos, e se não são amigos, são conhecidos, seus ou dos seus amigos. Isso vale para o açougue do Jair, para a borracharia do Léo, para a lanchonete do Ademir, para a boutique da Tereza e para o boteco do Manoel, cada qual no seu altar, revezando a mesma clientela. Criaram uma rede de publicidade mútua. A oficina anuncia o açougue, o açougue anuncia a farmácia, a farmácia a churrascaria, a churrascaria a sorveteria, a sorveteria a casa da informática, a informática a funilaria, a funilaria a borracharia, e esta abre um novo ciclo anunciando o material de construção, a revelação para fotos, o espaço para eventos, o disque gás e finalmente a funerária. Só o jogo do bicho dispensa publicidade porque a contravenção atua melhor na surdina e não precisa divulgar seus feitos para atrair a clientela tradicional que acredita que fé atrai sorte.
Na loja de sapatos, seu Jorge, seu Firmino e seu Zé Aparecido, companheiros de longa data, experimentam cada qual dez pares e não levam nenhum, para alegria dos vendedores que sobem e descem a escada de alumínio com sorriso no rosto, conhecendo a fama de caroço que persegue o trio de ferro da muquiranagem.
Na pizzaria recém inaugurada no antigo prédio do Monte Líbano, garotos de rua ficam na ponta dos pés a observar pela janela o banquete servido a partir de duzentos e cinquenta reais na noite mais longa do ano.
Funerária são duas, nenhuma com o nome de caminho sem volta. É preciso enviar uma mensagem positiva, de recomeço, de paz e descanso, de recompensa, de vida eterna. Não se tem registro por aqui de um único vendedor de caixão que tenha encarado os enlutados e falado: “chegou a hora do acerto de contas com o todo-poderoso”. Circula o carro de som pela cidade anunciando quem morreu, quando será o velório, quantos filhos e netos o patriarca deixou e já aproveita o ensejo para convidar os amigos e parentes à missa do sétimo dia e a instigar alguma espiritualidade, seja ela qual for, qualquer luz para que persista entre os vivos a ideia de continuidade, de que aqui é só um plano e de que se não há justiça na terra, há de haver no céu. Tarda, mas não falha. Note a obsessão dos mortais por fazer valer o juízo do que é certo e errado, de recompensa e punição. Precisam crer. Não conseguem aceitar o fim. Digo isso em defesa da única vida da qual temos certeza de existir, deste plano aqui em que estamos, para que se possa fazer bom uso dele; o que o transcende é fé, é incerto, é incomensurável. Certeza absoluta é de que só há uma vida. Nunca vi ninguém retornar. Ficaram furiosos comigo os familiares feridos nos velórios dos quais saí escorraçado por sugerir que reivindicassem a ressurreição do ser amado por quem tanto choram. Querem crer no reencontro sem dor no paraíso do amanhã, reino da paz e da concórdia. Por que Deus não me devolveu meu irmão? Quero vê-lo se levantar da terra.
Ninguém ganha muito neste comércio pessoal, mas todos faturam o seu. Todos oferecem descontos para policiais fardados e todos doam produtos para as rifas da paróquia do padre Vicente. As lojas até podem trocar de mãos, mas permanecem entre amigos e raramente mudam o nome, seria um tiro no pé. Assim funciona o comércio pessoal, o que para muitos não é capitalismo de verdade, mas é como no Bom Jesus o capital tem circulado há dois séculos, mantendo o índice de queixas no Procon espetacularmente baixo e a sala minúscula do juizado de pequenas causas às moscas, parâmetros os quais só um iludido aludiria à máxima comercialista de que o cliente tem sempre razão. Errado. Aqui o cliente também é feito de trouxa.
O hotel São Geraldo, em frente à praça da matriz, foi por quarenta e oito anos o único da cidade, até o Big entrar neste mercado escasso e oferecer-lhe alguma concorrência nesta cidade nada turística. Mas para os que aqui acabam vindo parar, caminhoneiros, andarilhos e pagadores de promessa de passagem, o São Geraldo ainda é o predileto. A pernoite custa setenta ou oitenta, a depender se o quarto for com ventilador ou ar, e a tarifa independe da temporada, já que em toda a história nunca se viu lotar. Setenta e um por cento da clientela prefere economizar dez pratas à dormir gostoso. É o que apontam os gráficos da faz-tudo Maria Geraldina, trineta do fundador e mais um ser-humano desiludido e castigado pela chaga dos dentes apodrecidos. Geraldina reclama, e com razão, do grau de exigência dos novos hóspedes. “Estão acostumados no dia a dia a pão na chapa e café preto. Daí viram hóspedes por um dia e passam assim, de uma hora para a outra, a exigir maior diversidade de frutas, iogurte, suco natural e salsicha com bacon e ovo mexido, como se por acaso fôssemos britânicos”.
Além do jogo do bicho, o bordel também dispensa publicidade paga. Não precisa informar endereço para que descubram onde está. Vive de indicações de taxistas e de homens que juram há muito tempo não terem estado lá. Dizem a verdade, sou testemunha. Nada sugere que o assíduo frequentador não possa cair em desgosto, cansar-se ou mudar de hábito, sem que haja motivos de força maior. No Bom Jesus, a sexualidade talvez não seja apenas reprimida, talvez ela seja bastante indesejada. É aumentada para parecer viril, quando no fundo essa é mais uma cidade absurdamente casta. O bordel está prestes a fechar. Depois que inventaram aplicativos conectando fodas casuais e seus pouquíssimos adeptos, a renda das putas e michês, desde sempre parcas, despencou ao nível da mendicância. Sobrevivem graças à melancolia. Não de velhos solitários atrás de companhia ou dominação. Ao contrário, nos seus anos de glória, os velhos bem casados pagavam bem para serem eles os dominados. Sobrevivem da melancolia de um turismo raso, de vaqueiros que até hoje pensam que puteiros oferecem aventuras e não desventuras, mulheres altivas e não necessitadas, tristes, quebrantadas.
Já os pedreiros são indicados na loja de material de construção, a Ideal, graças aos quais, aos pedreiros e à Ideal, quase todas as casas do município foram erguidas, com exceção das planejadas pelos arquitetos vindos de fora, um luxo que só a elite pôde bancar. Por aqui só há dois prédios residenciais, com seis andares cada, e rumores dão conta de que seus moradores se arrependeram do investimento, teriam preferido um bom quintal. As incorporadoras aqui têm dificuldade em convencer instigando o medo, porque, ainda que a criminalidade não seja nula e tenha até aumentado, as pessoas do Bom Jesus se sentem incrivelmente seguras, como se a criminalidade fosse mesmo nula. É verdade que já não dormem de janelas abertas e hoje em dia trancam as portas, mas são medidas que tomam também por motivo de privacidade. No espaço público, trafegam na maior tranquilidade, com cordões e relógios à mostra, sabe-se lá se não são réplicas, e carteiras e celulares que se avolumam no bolso das bermudas e poderiam muito bem chamar a atenção dos mal-intencionados — e se chamam, ninguém se atreve a furtar, porque no Bom Jesus, quem fizer isso fica marcado. Os cidadãos aqui também estão bem protegidos contra o estelionato, porque esse crime precisa de anonimato, e anonimato é o que ninguém tem no Bom Jesus.
Há um único shopping, que não é bem shopping, mas galeria, e dentro dele uma lan-house que virou a grande atração da cidade, cheia de jovens adeptos à tecnologia e aos jogos em três dimensões nos quais os jogadores competem para ser o maior assassino. No Bom Jesus ainda se vê a rotina dura das filas de varar quarteirão no INSS. São vaqueiros e agricultores que tiram a hora do almoço para resolver a burocracia e que dividem filas no Banco do Brasil e na Caixa Econômica Federal com aposentados e pensionistas, com os lojistas e ultimamente com os estudantes do segundo semestre de Administração em Itaperuna, a cidade vizinha, os quais, empolgados com o primeiro dia de trabalho na firma, antes de poderem administrar um balancete, são incumbidos de pagar as contas do escritório na boca do caixa e trazer o recibo de volta, o que na verdade serve como teste de confiança, porque no Bom Jesus os patrões testam a índole dos novatos no primeiro e não no segundo dia, e porque no Bom Jesus todas as empresas de um a vinte funcionários são familiares, de modo que as relações que elas travam, sejam com os clientes, com os fornecedores ou com os próprios empregados, também só podem se dar na base da pessoalidade. E foi-se o tempo em que o futebol servia de assunto para matar o tempo nessas filas perpétuas. Hoje em dia são muitos os que preferem o silêncio na espera; eles juram que calados o tempo passa mais rápido. Ou então leem Zola e resolvem charadas. Os que não aguentam o silêncio, puxam assunto sobre uma nova erva capaz de atiçar aquilo que no fundo ninguém quer praticar, quando não são os jovens curandeiros a prescrever chá de pata de boi para regenerar o pâncreas. No Bom Jesus, isso é um fato, as pessoas se chamam pelo primeiro nome, um grau de familiaridade que pode muito bem soar perversamente falso, porque, como todos sabem, na hora de fechar um negócio ou pleitear um crédito, é o sobrenome que entra como avalista.
Na Câmara dos Vereadores, uma comissão mista delibera sobre um fundo suplementar proposto pelo Executivo para suportar o aumento do aporte do bolsa-aluguel. No intervalo da sessão, dois vereadores de campos opostos caminham em direção ao sanitário dos cavalheiros. No mictório, travam o seguinte diálogo, puxado pela oposição:
“Rapaz, eu não aguento mais. Toda hora me pedem ajuda.”
“Ora, é só negar”, replica a situação.
“Não consigo. É bom demais. Não aguento ficar sem”.
Tivessem a intimidade vazada, responderiam por quebra de decoro. Misoginia levaria anos para ser tipificada como crime.
Na fila da vasectomia do SUS, o sargento passa pela entrevista de planejamento familiar. “Seguro? A reversão é cara e incerta”, alerta-o a enfermeira. “Seguríssimo. Manda bala. Nunca mais quero ser pai. Chega de viver para pagar pensão. O soldo é baixo. Você pensa que eu sou um oficial? Nunca mais quero ouvir o telefone tocar e a voz mansa emparedar: ‘tenho uma coisa para te contar’. Não tem, não senhora. Eu me capei. Sou estéril”. É o drama dos despirocados.
Agendada a cirurgia. Na fila de espera, os marmanjos se entreolham — estão ali por uma causa em comum. ‘Será que dói?’. Na sua vez, entra meio sem jeito na sala e é surpreendido pelo urologista. “Pode deixar a porta aberta. Vai ser rápido. Ninguém aqui quer ver seu saco”. Embora essa última frase não tenha sido dita, nem precisou. Deite-se. Por que tremes? Pronto. Serviço finalizado. Precisa retornar daqui a três meses para o espermograma — para a coleta, você sabe, e confirmar se está mesmo infértil. Assim retorna. Os mesmos companheiros do mês passado se entreolham, cada qual sai do consultório com uma revista dobrada debaixo do braço — e muitos levam mais tempo que o esperado no quarto dos dejetos, tendo que se submeter a ritual já há muito em desuso; evocam a pré-adolescência na casa da avó, o aguardo ansiado do anoitecer para se trancar no quarto e enfim ficar a sós com as modelos fáceis no papel, a folhear com calma as opções que não pode ter na vida real — físico, pose, olhar, encenação — o poder da imaginação onde elas são suas e não podem negá-lo, selecionando a imagem que mais casa com o filme do momento e guardando-a num canto da memória para num outro dia a retomar depois do rodízio que satisfaça a tara por novidade; segurando o impulso para o mistério não escapar, acariciando-se suave com as mãos que poderiam ser as delas, inventando novas cenas para o encontro não acabar prematuro, manufaturando fantasias pueris a preencherem retratos no álbum da sua vida de falsas conquistas, fodas irrealizadas, calcinhas rasgadas, paixões varonis deturpadas e frustrações de aço. Agora, todavia, a fantasia ainda na mente aflorada, neste reencontro à fidelidade, luta para se ater às sutilezas perturbadas pelo desvio de foco que desempolga, para que a euforia não acabe antes da hora e para que a moral, tão dependente da magia, caia amortecida ao desanuviar-se sobre o chão do autoflagelo. Fim do ato solitário. Inevitáveis reprises com o mesmo final. No despertar para a vida real, no consultório, onde as opções são sacais, a exigência cobra o preço pela velhice desencantada, novas fábulas a saciarem vontades sufocadas. Na vez do sargento, cai-lhe a décima quarta capa de icônica matrona de uma era findada, prontamente dispensada. “Não se faz necessário, minha senhora”, ele disfarça. “Já tenho minha cena gravada”.
No Bom Jesus sobrevivem desafiando o tempo viúvas fidelissimas ao padre Francisco, moribundas das trevas, criaturas indefectíveis que por essas bandas perambulam de crucifixos no peito, sambenitos na imaginação e bíblias na mão ávidas por culpas para se punirem e não obstante atrás de um pretexto para afiar a língua, demonstração crua de que, afinal, para nossa surpresa, elas desfrutam do mexerico e da crendice, tentações que amiúde se abatem sobre o vilarejo e quando o fazem não deixam pairar dúvidas sobre o quão perversa uma alma pode se camuflar na autopenitência. Por suposto, uma dentre elas se destoa: dona Clitênia, a “Morcega”, apelido horrível que hoje nos amargura por tê-lo ajudado a difundir. O que dizer desta senhora? Bem, a verdade é que não consigo lembrar de alguém que tenha trocado mais de cinco palavras com a criatura, e até por conta dessa sua aura misteriosa, essa mulher negra e rugosa, de mãos trêmulas, muito piedosa, tornou-se uma das personagens célebres desse Bom Jesus tão pródigo a prejulgar suas almas incomuns. Sobre dona Clitênia recaiu toda sorte de comentários infundados, que iam da perda de juízo e da autopenitencia ao abandono disfarçado de viuvez e à vida condenada, Gabriel que nos perdoe o plágio, há mais de cem anos de solidão. Hoje há de se reconhecer que eram boatos infundados, desses que castigam e nunca pedem perdão. Ao pensar que a mulher devota era vista como adepta, pasmem, da cartomancia diabólica, no mínimo um contrassenso àquela alma sofredora, vendo-a sair do confessionário do padre Francisco toda terça e toda quarta às quatro e meia da tarde e vendo-a vagar pela praça da matriz toda vestida de preto, preta dos pés ao véu que cobre as rugas e seus olhos profundos, nas madrugadas em que maldizia o capeta e prenunciava a volta do criador no ano dois mil — finalmente, ô pai, estou no seu aguardo desde que me pôs neste mundo! Não dá para antecipar o retorno? Ninguém aguenta mais sofrer. Retorne e nos salve, já é tempo.
Bom Jesus é terra de Seu Jeremias, um senhor moreno e atarracado, sempre com o bigode aparado e que há quarenta e um anos faz a barba de gerações de homens e meninos, até quinze por dia nos seus anos fortes, e mesmo hoje, bem menos frenético, pelo menos cinco marmanjos, ou candidatos a, vestem seu avental azul-claro, como o dos hospitais, e lhe dão a face à navalha, um hábito que para uns deixou de ser higiene e virou obrigação. Ali cortei meu cabelo até não sei quantos anos, algumas vezes à fiado. Saía com o corte de cadete, bem curto, como meu pai gostava, e de cortesia ganhava duas balas de hortelã, um agrado que Seu Jeremias fazia a toda criança e ainda o faz. Era assim a rotina: chegava na barbearia sem avisar e sempre tinha dois ou três clientes na frente, mas eu não me importava de esperar. A televisão era daquelas de quatorze polegadas, bege, com um controle de canais que se girava à mão, fixa num suporte alto no centro do salão, sintonizada na Globo, a imagem chuviscada e amiúde no mute. Ninguém prestava atenção. Os jornais sobre o banco de espera já vinham com a seção de esporte destacada. Eu ficava ouvindo calado as conversas sobre futebol e me segurava para não emitir opinião contrária à da maioria que degolava o treinador.
Seu Jeremias é vascaíno, o que se deduz pelos pôsteres pendurados nas paredes ou pelo adesivo da cruz de malta colado no seu barbeador favorito há mais tempo do que a primeira daquelas glórias emolduradas. E apesar de já ter sido mais fanático, ainda torcia bastante contra o Flamengo e por isso nunca lhe faltou assunto com a clientela neste Bom Jesus cujos filhos, quatro em cada cinco, torcem para o rubro-negro e pelo menos três dos quais deixam isso bem evidente. Mas era 1995 e naquele ano Botafogo e Fluminense brigavam pelo título nacional e foi a este fato que Jeremias atribuiu o aumento de fregueses dessas equipes centenárias, quando antes delas só saía um ou outro gato-pingado saudosista, quase sempre um reacionário, que ainda pedia para pagar o corte na semana seguinte quando entrasse aquela grana prometida por um terceiro devedor. De modo a aplainar a rivalidade entre as torcidas, Seu Jeremias criou um bingo que se tornou uma verdadeira tradição no Bom Jesus, um campeonato à parte, com direito a tabela exposta ao lado do calendário sensual e atualizada a cada rodada com a classificação dos apostadores, os quais disputavam ponto a ponto um fabuloso frango assado com farofa de banana-da-terra a ser entregue todo vinte de dezembro a quem adivinhasse mais resultados do certame e não só o campeão. Não foi um, nem dois, nem três os vencedores que decidiram abrir mão da ceia natalina, empanturrados que ficavam de aves. Por coincidência, quase todos os ganhadores, inclusive esses três últimos, eram vascaínos, mas não o Seu Jeremias, que como organizador nunca quis participar da jogatina, embora pudesse, para não levantar suspeitas de manipulação. Ele me garantiu, algum tempo depois, que tal coincidência só podia ser o consolo divino a quem torce para um time perdedor, e que estava seguro de que tão logo a sorte do Vasco mudasse em campo, e mal sabia que mudaria em dois anos, um flamenguista venceria o bingo. Não sei quando ou se isso aconteceu, o que eu sei é que de rifa em rifa Seu Francisco cativou todas as torcidas, até porque, como dizia meu tio Tadeu, cliente fiel e flamenguista roxo, o que importa não é para quem o barbeiro torce, mas o que ele faz com a navalha, e aqui devo dizer que não fui o único candidato a homem a vestir aquele avental azul-claro, igual ao dos hospitais, a se sentar naquela cadeira bege reclinável mais velha que a cidade e a se encarar no espelho abençoado por Salmos, com o cabelo borrifado e a gilete no pescoço, ouvindo o zumbido do ventilador e para quê?, um calor desgraçado!, suando feito um porco, enquanto Seu Jeremias, numa calma danada, segurava minha cabeça, fazia o pé e com seu espelhinho laranja perguntava se o corte tinha ficado no agrado — nunca vi alguém reclamar — e ao nosso lado um cara de perna para o ar e o rosto ensaboado sonhava acordado, outros quatro ou cinco na fila de espera folheavam o jornal dos esportes, torcendo para chegar logo a vez, a vez de relaxar na cadeira reclinável, pedir um corte de cadete, conversar sobre futebol e depois ganhar duas balas de hortelã de brinde. Não tenho saudade alguma desses cortes. A clientela é sempre a mesma.
Em frente ao Seu Jeremias, atravessando a rua, no segundo andar de um casarão antigo e amarelo fica o sinucão do Maculé, lotado nos forrós de sexta, o dia em que os donos da boemia faturam merrecas gordas — mais generosas, mas ainda assim merrecas. A mensagem grifada no azulejo do balcão de entrada dá boas-vindas aos cavalheiros, alertando-os de que freguês educado não cospe no chão, não pede fiado e não diz palavrão, embora esta última solicitação faz tempo que já não é seguida à risca, digna mesmo de ser riscada do quadro. Na curva superior das paredes à esquerda, sob a estufa da coxinha, do risoles e do bolovo, Maculé montou uma manjedoura com Jesus, Buda, Nossa Senhora, Iansã e outros santos, uma coisa bem sincrética para nos proteger logo de uma vez contra males ocultos vindos de fontes diversas, união de crenças em defesa da paz num ambiente propício à sacanagem. Sinuca é um negócio perigoso porque há sempre o risco de sair briga que termina em faca. Numa cidade onde os homens resistem a abrir mão daquele brio feroz de não levar desaforo para casa, foi-se o tempo em que marmanjos se matavam por mulher, hoje se matam por dinheiro, num Bom Jesus onde a valentia varonil é amiúde da boca para fora, o mais comum é o descontrole emocional, eu poderia dizer que as brigas com faca são raras, embora vez ou outra aconteçam, e quando acontecem, é no sinucão do Maculé, um lugar onde, a propósito, o frango à passarinho é engordurado, mas não tem problema, porque o litrão trinca e o choro da Xiboca vem de graça. O sujeito já está de tal forma acostumado com as desavença e, na condição de proprietário do local das ocorrências, é testemunha recorrente na delegacia, cujos inquéritos mais de uma vez teve de desmentir perante o júri, formando seu próprio juízo garantista contra o ímpeto condenatório do delegado que gostaria de ser promotor e do promotor que gostaria de ser juiz, maldizendo as peças acusatórias em absoluto incondizentes com os fatos por ele testemunhados. Houve vezes em que o próprio juiz ficou sem entender muita coisa, e as palavras da testemunha-chave poderiam muito bem ter sido ditas pelo advogado de defesa.
“Ué, mas o que o senhor está narrando, senhor Chico” — o primeiro nome de Maculé — “não é o que consta do laudo policial”, chama atenção o meritíssimo, também ele refratário à peruca aristocrata dos magistrados ingleses, única coisa no tribunal mais ridícula que o crime a ser julgado.
“Não é, não, senhor”, replica o comerciante, ressaltando que no seu bar todos são bem-vindos, inclusive os de reputação condenada pelo passado, tendo em vista ser um comerciante, não um jurado.
“E o senhor viu tudo? Estava lá na hora do ocorrido? — indaga o juiz.
“Estava, sim, senhor”, confirma Maculé, o qual, mesmo já tendo testemunhado outras vezes, descuida-se em pronunciar o vocativo ao se dirigir às excelências.
“Então por que o que o senhor está nos contando não aparece em nenhum momento nos autos? — insiste o magistrado.
“Olha doutor, aí eu acho que o senhor tem que perguntar para o senhor promotor. Minha impressão é que ele se baseia exclusivamente no inquérito policial. Ele não quer saber o que houve. Ele quer incriminar. Nem toda briga que resulta em morte — diz cabisbaixo, tentando medir as palavras — tem um culpado evidente. Existem contextos, atenuantes e existem acidentes. E eu acredito que estamos diante de um”.
O juiz coça a orelha, olha para o promotor, olha para o defensor público, pede para ambos se aproximarem e suspende a sessão. No final das contas, embora não seja uma regra, no Bom Jesus inocentes são presos ou, o que é mais comum, culpados puxam penas maiores porque ruge o clamor popular punitivista, arrebanhado pela tese da impunidade segundo a qual justiça é prisão, sanha conveniente à promotoria. No rádio, os comentaristas montam placares para aferir a qualidade da instância ou da vara: “Olha aqui, essa vara condenou treze, a outra nenhum. Uma foi justa, a outra leniente. Justiça é condenar. Absolver é impunidade”. Os juízes, em sua defesa, alegam que não se deixam guiar pelos anseios da população, senão pela Constituição. Ocorre que o rigor que adotam é amiúde o fiel que pende a balança para o lado condenatório. Desconfia-se que no fundo são seres que sentem um prazer carnal em punir. Homens cujas pirocas endurecem ao sentenciar a culpa. As mulheres eu não sei. Talvez sejam menos punitivas, talvez seja só senso-comum, sadismo independe de gênero. Já me peguei pensando que, se fosse eu o réu, preferiria ser julgado por mulheres, juradas ou magistradas. Hoje já não digo o mesmo. Hoje eu acho que o réu está condenado antes do julgamento. Sua única chance é que o homem e a mulher da toga não assistam televisão, não leiam jornais, ignorem os vizinhos, façam compras virtuais e se lembrem das aulas de constitucional. Coitado do réu, está condenado.
Um dos casos chamou a atenção em particular, mas faz muito tempo, o que dá margem para a realidade mágica fascinar, criadora de mitos com pingos de verdade misturados à fertilidade imaginária. Envolvia um frequentador assíduo, Tião, cabra tranquilo, sujeito trabalhador, que perdia todas as fichas e de boa, sossegado. Aceitava gozação e nem rebatia. Via sempre o lado positivo das coisas, defendia bandido injustiçado, odiava polícia e sem um puto no bolso repetia que tudo ia melhorar, saúde basta. Foi parar no banco dos réus por espetar um garfo na goela da esposa, a Neide, coitada, uma coisa bárbara, que ele prontamente admitiu, apresentando-se de livre e espontânea vontade ao delegado, a quem confessou tudo, tim tim por tim tim, alegando ter perdido a cabeça num instante de fúria, não porque soube que era corno, e não era — idiotas generalistas que pensam que homem só mata por honra, há tantos crimes não-passionais — mas porque naquele instante, e ele não soube explicar nem como nem o porquê, foi tomado por um ódio bem cristão, uma coisa maldita, sem explicação, sem motivação, algo que o boletim psiquiátrico chamaria mais tarde de desvio de personalidade, quiçá uma leve esquizofrenia, inconclusivo, e que o promotor contestou perante o júri mostrando imagens da mulher caída no carpete ensanguentada, o réu arrependido, ora, mais um, jurava de pé junto amar a morta, e a amava, clamando não pela inocência, é claro, mas por culpa atenuada, nas mãos de um jovem e combativo defensor público, já não tão idealista como na faculdade, mais um ídolo que inspirou Lucas a sonhar em seguir a mesma carreira, vendo-se um dia ali naquele papel, fazendo a coisa certa, defendendo quem não pode pagar perante um júri formado para condenar. Condenado a trinta anos, progressão recusada, mais um que apodrece anônimo no cárcere e não no hospital, aguardando não pelo perdão que jamais virá, mas pelo fim da pena que já foi paga à despeito de todos os pedidos de condicional negados por comitês sensíveis às imagens que o promotor fazia questão de ressuscitar, a da mulher pálida com um garfo espetado no pescoço, imperdoável. Num único instante de fúria, boa parte da vida destruída. Haveria redenção?
Convocado como testemunha de defesa, Maculé narrou sob juramento a sua versão dos fatos. Foi o último, afinal, a estar com o réu, naquela terça-feira maldita, antes do assassinato. Contou todas as suas verdades. Conhecia o réu havia nove anos. Nunca o vira alterado.
“Não senhor, promotor, o senhor, queira me desculpar, mas está enganado. Seu Tião não é um sujeito agressivo e, na minha humilde opinião, foi por isso que vim aqui testemunhar, certo? O promotor quer me ouvir ou quer extrair da minha boca as aspas que te convêm?
O promotor fica um pouco desconcertado. Pega seu toco de lápis e faz uma anotação. Cogita objetar a testemunha, mas, conhecendo o perfil do juiz, deixa a objeção para mais adiante.
“O réu confessou o crime. Mas, se o senhor quer saber se ele representa risco à comunidade, na minha opinião, a resposta é não. Matou e ele não nega. É um assassino? Matará outra vez? Será? Foi um crime cometido na fúria ou na índole? Matará porque matou uma vez. É você quem diz, promotor. Eu penso que o réu nunca mais matará. Foi só dessa vez. É uma previsão, como a do senhor também. Pode o senhor promotor garantir que quem nunca matou, jamais matará? Não, não pode. O senhor não pode garantir que eu, ou o senhor, que nunca cometemos homicídio, jamais o cometeremos. Da mesma forma, não pode garantir que quem matou uma vez, certamente matará novamente. Não existe certamente no futuro. Não detemos o controle sobre nossas ações futuras. Podemos achar que detemos, mas não detemos. Ninguém pode garantir que haverá reincidência. Nós não sabemos. Pode haver. Pode não haver. E ninguém pode ser condenado por uma hipótese. O fato é que o réu cometeu um crime, não vários, um, e ante o qual está aqui para ser julgado. Por um só crime, e não pela hipótese de que venha a cometer outros.
Este é o argumento da testemunha de defesa, que poderia muito bem ter saído da boca do defensor, mas não precisou, tendo em vista ser a testemunha tão sagaz.
“Peço ao júri”, prosseguiu Maculé, “que analise o crime presente, o ato fático, e não o que dele possa advir a ocorrer no futuro. Repito que ninguém pode ser condenado por hipóteses. E supor que quem matou uma vez, matará de novo, é tão somente uma hipótese; uma imaginação horrível na bola de cristal da cartomante, não uma prova a ser considerada no tribunal. Fatos, senhores, por favor, atenham-se aos fatos, não ao futuro desconhecido. Eu posso sair deste tribunal agora e em cinco minutos estrangular alguém. É uma possibilidade. Vocês vão me condenar por essa possibilidade? Vão me condenar pelo que um dia eu talvez possa fazer ou pelo que de fato eu fiz?
Tião condenado a trinta anos de prisão, sem direito à progressividade. Voltaremos ao julgamento para conhecer os pormenores, já que a sentença antecipada já estava dada, afinal o réu confessou o crime. Ocorre que certos detalhes passaram batidos e merecem ser elucidados.
Andando pelo Bom Jesus vemos no canto das sarjetas carcaças de gatos atropelados, gatos amarelos, cinzas e listrados, cada qual mais avesso a carinho. Eles desprezam a aguinha fresquinha que as bondosas colocam na calçada e arriscam as sete vidas no anonimato, arriscando travessias entre motos e carros desenfreados. Cachorros vagam por todos os lados, a minoria dos quais em matilha, alimentados por meia-dúzia de ambulantes caridosos e escorraçados pelo comércio guiado pela mentalidade torpe segundo a qual vira-latas sarnentos depreciam seus produtos e afugentam a clientela, o que é tão absurdo e indignante e ainda assim até hoje nenhuma entidade protetora se insurgiu contra tal covardia — os animais aqui não têm direitos. Na estrada do Rebenta-Rabicho, os urubus fazem fila à espera da próxima carcaça de ser atropelado. Impressiona a má-fama dessas aves indolentes, mascote de uma nação tão amada, afável nos desenhos e desprezada na estrada, elas que metem medo pela aparência, porque não tiveram a sorte de nascerem corvos. Formigam os anúncios de cartomancia nos postes, prometendo trazer o amor de volta em sete dias ou o dinheiro de volta. Não era assim a um tempo atrás. As desilusões alimentam esse negócio, de tal modo que é imperativa a rejeição, e alguém um dia ainda há de conduzir uma investigação séria a respeito da autoridade amorosa dessas bruxas modernas, mal queridas por não terem a sabedoria dos magos que não trabalham com paixão. Impressiona também o índice de acertos, atestado por aqueles que fazem tudo nos conforme mas precisam e pagam a um olhar de fora a atestar a direção correta dos atos e fundamentos. De insegurança sofre-se calado, ou talvez não haja dor. Diz-se dos seguros que são os mais vaidosos.
Estabelecimentos comerciais regozijam-se de serviços prestados por antiguidade. Há armazéns de tecidos e quinquilharias, para não falar das flores, que funcionam desde o final do dezenove. E há ingênuos, além dos reacionários afetivos, é o afeto que os move, que acreditam que, por serem antigos, são bons. Há ainda, neste contexto, um estranho apreço à monarquia no comércio familiar. É o rei dos calçados, a rainha da espora, a princesinha das lingeries — ninguém quer ser o súdito ou plebeu, só se importam com o soberano. Intriga o fato de reis e rainhas dispensarem os diminutivos, enquanto a filhinha amada precisa, associada a sensualidade dócil, infantilizar-se, como se fosse a ninfa a cativar o imaginário. Observo entre meus pares que o efeito pretendido frustra, quando não se dá na razão inversa. Parece-me que quanto mais se diminui para encantar, diminui-se tanto que a excitação evapora. Há certos domínios em que o menos não é mais — e a teatralização dos desejos não suplanta o gozo da ação concreta, cuja matéria dispensa diminutivos e aumentativos. É quando o ato não subsiste por conta própria que a imaginação precisa voar para alcançar emoções fantásticas. No entanto, as aves também se cansam de voar e precisam se alimentar. Não é o voo que as satisfaz. Não há alimento pairando no ar que a liberdade morda. É preciso voltar ao chão para comer.
Isso sem falar das propagandas que te proíbem de adquirir novos óculos, pneus e empadas antes de consultar o orçamento imbatível de quem as enuncia. Das lojas cujo logo é o globo porque o preço, com perdão do exagero, é o mais baixo do mundo; da pantera confecções, verdadeira fera em vender barato. As garras da felina não apreendem, mas o grafite deforme é bastante original. E, finalmente, dos salões às pencas que prometem deixá-las mais lindas do que já são. No negócio da vaidade, é o amor próprio quem manda — e há sempre um valor externo a cativá-lo.
Durante minha pesquisa, vi o estratagema do “cobrimos qualquer oferta” ser posto à prova somente oito vezes, e todas pela dona Dolores, que não é cartomante. Ante meus olhos, ela foi a única cidadã desta vila que se deu ao trabalho de pedir um orçamento na praça para, em posse de tal, ir no concorrente alvissareiro cobrar o desconto prometido, obtido de imediato, na casa dos centavos, pagando o preço pela fama de mão de vaca.
Todos os dias, menos às segundas, a velha-guarda joga xadrez na praça da matriz, ocasiões nas quais ralha o técnico da seleção depois de mais um empate nas eliminatórias; esses senhores de passado largo dividem o espaço com os membros remanescentes da Associação Bonjesuense dos jogadores de buraco, dezessete por cento mais conservadora que a dos enxadristas, cujos membros não costumam acolher curiosos, não abrem novas inscrições e detestam plateia, espantando com olhares tortos os que insistem em se aproximar e ai de quem ousar dar uma sugestão de jogada; nota-se que são sempre as mesmas duplas, não se revezam, enfrentando-se em jogos calados de melhor de cinco e de cinco mil pontos cada. As sorveterias com a promoção de duas bolas por cinco reais estão vazias; ao lado do pipoqueiro, que vende algodão-doce tanto o branco quanto cor-de-rosa, além de gerir a máquina de vender bolinhas quica-quica que está com defeito faz um semestre, o que não inibe os espevitados de enfiarem fichas e balançarem a máquina esperneando “não saiu a bolinha, mamãe, eu quero minha bolinha”.
Na churrascaria do Gaúcho, na entrada da cidade, o dono capixaba teve que reduzir o preço do rodízio depois que dois dos seus garçons ficaram com fama de sovina por passarem pelo salão abarrotado escondendo os espetos de picanha, se é que são de picanha, os clientes tendo que puxá-los pelo braço, uma cena horrível, ‘vem aqui e desce uma lasca, não fuja!’, situação felizmente contornada numa reunião em que os pobres funcionários puderam se desculpar pelo que antes tinham razão:
“Está vendo, patrão” — pede a palavra Rigoberto, funcionário mais antigo da casa, há cinco anos sem aumento e grato por ter um trabalho — “não adianta regular carne boa, entuchar linguiça e pão no bucho dos safados, porque eles administram o estômago. Deixam passar o xã, beliscam um ou outro coração, no aguardo da picanha. E se ela não vier, eles chiam. Talvez seja o caso de o senhor reajustar o anúncio: não prometer picanha, já que se aumentar o preço do rodízio os clientes fogem feito gato d’água. Como são chatos, como são exigentes! Querem tudo do bom e do melhor e ainda pagar barato. Deus me livre de ser comerciante, ter que atender a esse nível de exigência condenada à insatisfação. Deus me livre dessa penitência. Eu não peço um prato-feito de cinco conto e cobro por um banquete”, saiu Rigoberto mais uma vez em defesa ao patrão, reforçando sua fama de puxa-saco.
O dono da loja de discos resmunga com os jovens que entram no estabelecimento, ouvem vinte discos, inclusive do Bon Jovi, vão embora sem comprar nenhum e depois ainda falam mal do acervo minguado; os promotores de evento anunciam a próxima melhor festa do ano na AABB dali a quatro dias; e nos últimos tempos tem havido uma explosão de rostos de cavalo de madeira enfeitando os cantinhos de churrasco no quintal para alegria dos escultores que ainda fazem o trabalho à mão — os rostos ficam tão expressivos que parecem conter a magia de fazer homens do comércio voltarem a se sentir cavaleiros, porque no Bom Jesus todo mundo ama cavalo, um mito fundador, e o que é realmente de se espantar é que nunca houve semelhante homenagem às mulas e aos jegues, estes sim, gigantes menosprezados. Finalmente, como deixar de falar do dogueiro Jorge e do seu carrinho velho de guerra, reclamando das vendas enquanto o molho ferve, seguro de que as coisas vão melhorar e livrando os generais da culpa pela informalidade. Esperança. Fé e esperança. Com trabalho e saúde, tudo há de ficar bem. É formidável a crença no espírito protestante.
Essas cenas estão tão vivas em nossas memórias, ontem e hoje, afinal se repetem todas os dias numa rotina que dita o ritmo nesta vila onde nada de extraordinário acontece, uma vila que de tão pacata parece ter parado no tempo, e é por isso que quando alguma coisa anormal se passa aqui, algo que nas cidades é tão banal, como anônimos se jogarem na frente do metrô, acontece todas as madrugadas e é tão difícil encontrar um culpado, quando algo assim acontece aqui, da forma que for, justo aqui neste pontinho apagado do mapa, é como se a vila fosse acordada pelo mal que também ela faz de conta não existir.
Duas famílias dominam a política bom-jesuense e vêm se revezando no poder há nove décadas: a família Garcia e a família Portugal. Os Passalini são amigos dos Garcia; os Tebaldi, dos Portugal. Elegem primeiro filhos e netos, depois sobrinhos e primos; se algum macho fica inelegível, convidam as esposas, e de quatro em quatro anos brigam para convencer o eleitorado quem fez mais pelo povo, apelando para feitos passados, feitos dos quais o povo nem sempre se recorda e de quem esperam gratidão, e mesmo se se recordasse, seria de todo modo difícil distinguir quem fez ou deixou de fazer o quê; o que um começa, o outro inaugura, e vice-versa, quem inaugura diz que fez tudo sozinho e quem começa diz que entregou pronto, só faltava a placa. E o que o bonjesuense está cansado de saber e releva é que por trás das aparentes diferenças e acusações trocadas durante a campanha, acusações que vão de nepotismo e gastos supérfluos à bigamia e patrocínio as rinhas de galo, no final tudo não passa de um grande teatro; finda a batalha judicial para homologar o vencedor, aparecem os flagras dos patriarcas bebendo Cavalo Branco nas festas de casamento dos futuros candidatos, filhos, netos, sobrinhos, primos e amigos em comum, aqui onde os casamentos nunca acabam e aqui onde ninguém mais desacredita que o ódio termina e se renova em datas marcadas e que no ínterim reina uma trégua manjada que bem pode ser confundida com amizade. E até hoje a gente do Bom Jesus aguarda tanto dos Garcia quanto dos Portugal a solução definitiva para o problema das enchentes, essa desgraça que assola a cidade desde antes de ela ser mapeada, que entra janeiro e sai janeiro invade as casas de muita gente, e na das humildes arrastam móveis comprados a prestações que mordem um terço do salário e que no século passado levou uma garota altruísta e penitente chamada Lúcia a ligar para o prefeito e convencê-lo a transformar as escolas municipais em abrigo, o que é hoje uma política de Estado.
Não só na política essas famílias se enfrentam; cada qual patrocina seu time de futebol, porque no Bom Jesus, como em qualquer lugar, futebol e política se misturam, quando não se fundem numa coisa só. A rivalidade no município já foi deveras real entre Olympico e Progresso — o primeiro dos Garcia, o segundo dos Portugal, ambos de 1914 — e, assim como seus donos, hoje eles vivem de glórias passadas.
Há a disputa pelo tempo. Cada qual, de quando em quando, surge com uma nova ata de fundação, recuando cinco dias à anterior no afã de ser a mais antiga. Mistura-se jogo regrado com bola chutada e assim o encontro casual de cinco moleques na praça, num ano que varia ao sabor da imaginação, torna-se a pedra angular da agremiação anglo-nacional. De inglês mesmo, nada — só os ares da arquibancada em ruínas, erguida ao custo de doações comunitárias, coberta por telhas, sobre pilastras de madeira e com bancos de cimento de três lugares que lá estão aos pedaços, semelhantes aos de uma vila operária fantasma que nasce à margem da ferrovia, berço de tantos clubes nacionais, berço e túmulo, pois tal como nascem, morrem nos trilhos, nestes sobre os quais hoje circulam cães famintos, farejando os restos das glórias. Cada qual narra a sua história, tão parecidas, tão complementares, tão imbricadas. Irmãos-siameses cujas ambiguidades retroalimentam suas existências. Foi de rivalidade que viveram no passado; o que resta dela são imagens em mentes saudosistas, histórias fabulosas que já não encantam ouvidos descrentes.
Conta-se no Progresso que nalgum jogo do ano um da sua fundação, a torcida lotou o estádio Carlos Firmo, com capacidade para cinco mil espremidos, metade da população da cidade, para torcer contra o próprio time, pois a derrota empurraria o Olympico a um rival difícil na segunda fase dum torneio sem importância alguma em pecúnia, só aos brios de quem se reafirma comparando-se ao irmão, um só existe por conta do outro. O lance fatal foi aos vinte e seis da segunda etapa — e não aos quarenta e cinco, como narram os fantásticos e comoventes. Quatro atletas já tinham sido expulsos, dois de cada lado — animosidades contornáveis, diga-se, as quais Zezé, o árbitro disciplinador, preferiu dar um basta. Ninguém precisaria ter sido expulso se este senhor não fizesse questão de exercer sua autoridade. Por um lado, todavia, foi bom. As expulsões mexeram com o público de uma tal forma que os quatro pernas de pau não o fariam com inspiração. Tivessem em campo, ficariam correndo de um lado para o outro, acertariam passes de um metro, reclamariam do cansaço, culpariam a vida desregrada e só, que monotonia; nenhum chute de fora da área, nenhum drible desconcertante, nenhum gol de mão. Portanto, carrinho sem bola e briga simulada foram o que de melhor poderiam ter feito no duelo. Foi o que fizeram e estão de parabéns. Parece-me que as expulsões até hoje não receberam o crédito devido no esporte. O quanto elas o tornam emocionante, pelo o que são dignas de reverência. Como fã que sou, roo as unhas am ânsia pelo confronto em que todos os atletas sejam expulsos, inclusive reservas e gandulas, e o jogo termine com um empate sem gols e uma salva de palmas aos guerreiros que deram a vida em campo para confraternizar depois no ambulatório.
Nosso árbitro viu um pênalti questionável a favor do time da casa. Gagá, homem preto, pegou a bola e posicionou-a um dedo à frente da marca da cal, triscando-a. Recuou quatro passos e, ao som do apito, disparou, isolando de propósito e encenando a irritação. A torcida da casa foi ao delírio, gritando em clamor o nome do capitão. ‘Ga-Gá! Ga-Gá! Ga-Gá!” A partir daí a coisa ficou muito estranha, e o que era para ser um confronto real virou pelo avesso, com o time visitante fazendo de tudo para perder e o anfitrião de tudo para não ganhar. Foram oito gols contra, quatro para cada lado, cada qual mais lindo que o outro, de bicicleta, peixinho, voleio livre de marcação e o arqueiro caindo atrasado. A dois minutos do fim, mais um pênalti a favor do Progresso. “Que olho de águia tem este árbitro!” — esbravejou Zé Maneco, o beque do Olympico, agarrando a bola na pequena área e se acusando aos berros ante o árbitro. “Aqui, seu Zezé, olha a bola aqui na minha mão”. Seu Zezé, canela fina, todo de preto, tricolor roxo, não teve opção. Marcou a penalidade. Gagá na bola. Quatro passos e pimba, lá no alambrado. Herói da partida. O Olympico ficou sem tempo para retribuir a graça. Seu Zezé pegou a bola e apitou o final da partida. Antes, contudo, expulsou Fogão, o beque olímpico, pelo motivo que se depreende no diálogo abaixo:
“Professor, o senhor me expulsou?”, questionou o zagueiro, que antes do início da partida havia tido com o juiz, pedindo-lhe que deixasse a jiripoca piar.
“Sim, senhor, seu Fogão. O senhor não me deu alternativa.
“Como assim?”, replicou o beque, indignado, fingindo-se de tonto.
“Ora, o senhor me mandou tomar no cu. O que pretendia que eu fizesse?”, o árbitro devolveu-lhe a dúvida, num tom sério que soava a pilhéria.
“Ah, foi por isso?” — deu-se conta repentinamente o animal. “Podia ter relevado, né? É do jogo.
“Não é, não, seu Fogão. O senhor queira me desculpar. Ficar caindo e gemendo de dor sem ter sido sequer relado pode ser do jogo, antijogo, no caso. Mas mandar um trabalhador que está aqui de favor tomar no cu, isso não é do jogo, não senhor, meu caro Fogão. Um mínimo de respeito é preciso ter. Aceite a derrota.
O presidente do Olympico invadiu o gramado com uma galinha na mão e protestando a marmelada, enquanto Gagá se desculpava apontando para o pé descalibrado, culpa da joanete. Seu Zezé anotou tudo na súmula e deu por encerrado o duelo embrião da rivalidade. O resultado, claro, só poderia ser um: quando ninguém quer ganhar, empata. Resultado que convém a amizade. O troco viria trinta e sete anos depois, revanche que o tempo esquece, com encenações menos autênticas e gols incríveis desperdiçados, impossíveis de se crer, já que qualquer um os faria.
Glórias dos anos cinquenta, profissionalismo tacanho, quando chegaram cada qual a revelar jogadores que depois alcançaram projeção pífia numa das equipes grandes da capital. Luisinho, Betinho, Caçapa, Ponto e Vírgula e Amoral. Nenhum craque, afinal. Os torcedores: operários da dor, filhos pródigos do torcer sem glórias. Progresso por três vezes vice no Capixaba (1951–52–53), carma de ferro cuja mística não supera. É sapo enterrado. Sal, erva e cachaça. Busto do fundador olhando por todos os ângulos, até de olhos fechados. O padre exorciza. E nada, o passado é violento demais. Registra-se, em tempo: jogadores que após uma sequência de derrotas que já durava cinco anos, recorde digno de manchete, aparecem no álbum da temporada com os rostos cobertos pelas mãos, e que se apresentam com pseudônimos aos cronistas inspirados por Talese a contar grandes histórias de derrotados. Confessam a vergonha e imploram anonimato, sem o qual afundariam na cal a carreira já condenada. Ainda jogam pela forma, é este o pretexto. Prazer não há. Desafiam-se a ser o que um dia acharam que poderiam. E muitos continuam na espera do companheiro tomar a iniciativa de pendurar as chuteiras. “Por favor, seu repórter, esconda-me, ignore-me, faz de conta que eu não existo. Invente as aspas e noticie mais um revés original. Renuncio a meu brio e continuo vindo, repetindo a ação irrefletida, num desses movimentos que se tomam sem causa, ao sabor da ordinariedade, acostumados que estamos em vir e jogar para perder”. E por que não param? É a rotina autoimposta, essas decisões que, uma vez tomadas, não se desfazem fácil, simplesmente porque vão sendo empurradas a reincidir pelo cotidiano.
Eles, os clubes, caíram no ostracismo nos anos 1980 e nele permanecem desde então, numa gangorra de fracassos e alegrias singelas que suscitam o eterno drama entre o resistir em fiapos e a extinção, com gramados mal cuidados, funcionários dispensados e não pagos, a falência decretada, passivos que não acabam e viram fábulas, arquibancadas vazias, salões fantasmas, troféus esquecidos e torcedores mortos. Viraram pontos de referência, úteis para indicar um endereço. Ainda mantêm, todavia, as divisões de base, que disputam contra os times da região a famosa Copa Gazetinha, anunciada pelos mesmos carros de som que pregam a volta do criador justiceiro, mas que já não vale muito além de um prestígio apagado, lembrado por meia dúzia de gatos-pingados que viu Pelé jogar e tem saudade dos anos de chumbo. Restam ainda, é verdade, um palmo de sócios abnegados, dominozeiros de bermuda de camurça marfim e cinto à mostra, católicos e arrimos de família, múmias para as quais as ruínas do tempo tomam mais tempo a desmoronar, em que pese lastimem o fato de seus amados clubes, Olympico e Progresso, irmãos de ódio, terem se tornado não mais que vitrine política para os seus proprietários, razão pela qual ainda não sumiram da história.
A rivalidade foi outrora tão forte que certa vez até tiro saiu, ainda bem que sem morte. Foi assim que sucedeu:
Era clássico de domingo pela quinta divisão do Capixabão. O ano é sete-oito ou sete-nove, algum reaça há de se lembrar. Na semana que o antecedeu, as torcidas se implicando, rumor de juiz comprado, promessa de recompensa para tirar o Nem de campo e jogador que jogou em um e foi para o outro falando mal da casa antiga, isso nos dois lados, é recíproco, tempos em que virar a casaca era desonra. Ninguém compreendia nem aceitava, a não ser os próprios jogadores que se viam sem alternativa depois que o dirigente não cumpria com o combinado — e não exigiam mundos e fundos os jogadores, diga-se, podia ser só indicação para a filha trabalhar de secretária na firma do irmão magnata — mas quem levará isso em conta se o manto foi beijado, ora, beijar manto não é compromisso sagrado, compromisso eterno? Nem nunca foi. Jogador joga por obrigação, mas não quer ser condenado, e se a pena por trocar de casa for a índole atacada, é pena menor que a perpétua dum acordo sem fé. Assim eles pensam. E assim foram os times escalados, cada qual com um monte de vira-casacas. Tinha chovido na véspera e o gramado, já surrado, virou um pasto. Nunca foi dos melhores, é verdade, mas, no clássico, estava mesmo um brejo, um mata-cavalo doido para torcer tornozelos e enganar os goleiros para alegria da ala ranzinza da torcida da casa que até hoje prega que craque que é craque supera qualquer obstáculo. Começaram chutando tampinha, ora bolas.
No retrospecto dos últimos trinta confrontos: uma vitória para cada lado e vinte e oito empates, três quartos dos quais por zero a zero, pipocas e vaias. Mas avance logo nesse relato e me diga que história é essa de tiro. Seria hilário se eu soubesse contar. O tiro saiu depois que Nem abriu o marcador de cabeça, aos trinta e dois da segunda etapa, no quarto escanteio consecutivo. Gol do Olympico. Na hora de registrar no placar manual, todavia, não é que o garoto, que estava lá para faturar vinte mangos, anotou por engano o gol para o time errado? Um torcedor idoso acusou o complô do presidente do Progresso e, revoltado, sacou um revólver e disparou para o alto. Saiu todo mundo correndo e o juiz, para não acirrar mais os ânimos, achou melhor encerrar a partida sem vencedor, para ira do Nem, que saiu resmungando o gol feito e inválido e depois disso preferiu se aposentar e virar agricultor. “Futebol no Bom Jesus é muito amador”, reclamou o matador. “Melhor eu voltar pra roça porque lá o que é certo é certo e o combinado não sai caro”.
É o que tenho a registrar dos dois clubes da cidade.
E nunca houve uma terceira via política? Houve sim e não faz muito tempo. Um médico muito querido na cidade, amigo do meu pai, vizinho nosso, chamado Reinaldo, doutor Reinaldo, novo, bem novo o rapaz, tinha lá os seus quarenta e seis, quarenta e sete, não chegava aos cinquenta, alto, já bem grisalho, pai da Júlia e do Jadson, dono de uma casa toda de madeira, com uma lareira que só serve de decoração, e de um mangalarga-marchador que ele não deixa ninguém tocar a não ser a esposa, Maria Rita, fisioterapeuta e professora de ginástica, e dono também do consultório mais caro do Bom Jesus, onde ele nunca deixou de atender os pobres de graça uma vez por semana, às quintas-feiras pela manhã, agenda lotada, ocasiões nas quais dispensa o título de doutor ainda que eu não seja o único a desconfiar que o doutor bem gosta de assim ser chamado, para só então dispensar a formalidade. Relutou demais a entrar na política e só o fez depois de quatro desilusões alternadas, duas com os Garcia e duas com os Portugal, ambos os quais, a despeito das promessas, não conseguiram entregar, alegando falta de verba, o malfadado hospital da Berolinha, no bairro mais populoso da cidade. Relutou tanto que desistiu duas vezes e teria desistido a terceira, para alegria da esposa, não fosse uma campanha espontânea de cidadãos pobres e ricos, mais pobres do que ricos, em frente as obras abandonadas do hospital com cartazes amarelos não muito criativos pedindo Reinaldo para prefeito com a graça do povo que sofre. Meu pai tentou dissuadi-lo numa conversa que durou mais de três horas na nossa varanda, regada a rabo-de-galo e ovo de codorna, e que terminou não com um tom profético de depois não diga que não te avisei, mas com abraços e brindes de sucesso não sei se sinceros e talvez um voto garantido, afinal doutor Reinaldo estava convencido. Filiou-se a um partido nanico e mesmo com uma vice sobre a qual ninguém tinha ouvido falar lançaram uma chapa com nome de escola de samba, Unidos pelo Progresso do Bom Jesus, um nome que ao fim e ao cabo poderia ter sido outro qualquer que não faria diferença alguma já que a eleição estava ganha antes de começar. Os Portugal tiveram que exumar uma aventura amorosa do doutor nos seus tempos de Faculdade no Cachoeiro de Itapemirim para tentar desmoralizá-lo, e no final desistiram com receio de caírem em desgraça com o novo eleitorado que graças ao nosso Bom Jesus já não se deixava abalar por apelações castas, dos idos da obscenidade tipificada no código penal. Os Garcia, com o dedo do meu pai, não o apoiaram, mas também não bateram, e assim as duas famílias rivais pela primeira vez concorreram só para fazer constar seus sobrenomes no imaginário popular. Foi também a primeira vez que o eleitor cristão atento pôde captar o apoio implícito a um dos candidatos na homilia dominical do padre Vicente, um apoio nada desprezível vindo de uma santidade em pleno altar, de onde e de quem nunca se tinha ouvido palavras fora da liturgia a não ser em derrotas muito raras e imerecidas do seu querido rubro-negro, tão querido que não tinha peias em protestar contra aqueles cuja única função é acertar o gol; mas agora, agora o bom homem tateava um assunto sobre o qual a igreja o proibia de falar, e, contrariando-a, ao fim do sermão incentivou os fiéis a votar no quarenta e quatro e foi além, sugeriu com cautela para não ser mal compreendido que abrir a cabeça para mudanças pode estar em perfeita consonância com o evangelho segundo Paulo.
E como foi a gestão do doutor Reinaldo? Quase que por unanimidade, a pior que o Bom Jesus já teve. Sua índole o levou a rechaçar a renovação de contrato com a empresa de coleta de lixo cujos sócios eram amigos de longa data de nove dos treze vereadores, alguns no sétimo e outros no oitavo mandato. Sem apoio na Câmara de Vereadores, não aprovou projeto algum. E o lixo se espalhou pela cidade porque a nova licitação foi retardada até o limite do suportável, em tempo de o povo ir às ruas pedir a cabeça do prefeito, até ontem o homem mais admirado do Bom Jesus, eleito com oitenta e sete por cento dos votos válidos e que por ironia ficará marcado como o médico que não entregou o hospital prometido à comunidade pobre da Berolinha, onde até ontem os moradores empunham cartazes em campanha ao médico do povo. Em sua defesa, ele alega ter sido boicotado e por isso não conseguiu governar; e que sim: arrepende-se profundamente, deveria ter ouvido sua esposa e que essa história de que toda experiência é válida é papo furado de gente que não tem coragem de reconhecer erros e remorsos. Pudesse voltar atrás, insistiria com a candidatura, mas, se eleito, governaria de outra forma. Hoje se diz um pragmático e cita Nicolau:
Há tanta diferença de como se vive e como se deveria viver, que aquele que abandona o que se faz por aquilo que se deveria fazer, aprenderá antes o caminho de sua ruína do que o de sua preservação. Eis que um homem que queira em todas as suas palavras fazer profissão de bondade, perder-se-á em meio a tantos que não são bons. Donde é necessário, a um príncipe que queira se manter, aprender a poder não ser bom e usar ou não da bondade, segundo a necessidade.
[…]
A um príncipe não é essencial possuir todas as qualidades, mas é bem necessário parecer possuí-las. Todos veem o que tu aparentas, poucos sentem aquilo que tu és. Antes, ousarei dizer que, possuindo-as e usando-as sempre, elas são danosas, enquanto que, aparentando possuí-las, são úteis. Parecer piedoso, fiel, humano, íntegro, religioso e sê-lo realmente, mas estar com o espírito preparado e disposto de modo que, precisando não sê-lo, possas e saibas tornar-te o contrário. Deve-se compreender que um príncipe não pode praticar todas aquelas coisas pelas quais os homens são considerados bons, uma vez que, frequentemente, é obrigado, para manter o Estado, a agir contra a fé, contra a caridade, contra a humanidade, contra a religião. Porém, é preciso que ele tenha um espírito disposto a voltar-se segundo os ventos da sorte e as variações dos fatos o determinem e, como acima se disse, não apartar-se do bem, podendo, mas saber entrar no mal, se necessário.
Afirma em conversas reservadas e sem constrangimento que a corrupção passiva é o mal necessário, o preço a ser pago, é um imperativo para se governar bem, e que com certeza os bons governos, no Bom Jesus ou em qualquer lugar, se foram bons, bons e reconhecidos, pagaram o preço.
“Esta é uma causa indecorosa, meu filho” — diz em tom de prelúdio, com aura de experiente, as pernas cruzadas, de colete de camurça e gravata, a voz rouca e calculada, como se tivesse acabado de receber um prêmio e a plateia o aguardasse se pronunciar. E emendou: “Porque nunca você verá um homem de bem vir a público defender o excremento do capeta, o substrato do mal — a corrupção, na visão moralista — sobretudo numa cidade rural e moralista como a nossa. Qual cidade não é?”, ele ri. “E eu os entendo. Juro que entendo. Mas deploro a ingenuidade. Como deploro a corrupção. Odeio-a profundamente, mas te asseguro que tem coisa pior, como a ingenuidade. Não entregar um hospital é muito pior. Acredite. A conta dos idealistas é que a corrupção desvia recursos do hospital e, sem hospital, pessoas morrem. A conta real é que, desculpe te desiludir, mas é a realidade: sem corrupção, não existe recurso liberado para construir o hospital. Sem corrupção, a licitação trava e a obra para. Sem corrupção, sem hospital, mais pessoas morrem. Presumo então que a corrupção, em vez de matar, na verdade, salva. É feio, né? É horrível. Eu sei. Mas é a realidade. Sei o quão horrendo é ter que te dizer que se o preço a ser pago para pôr o hospital para rodar for molhar a mão de uma dúzia de achacadores, é exatamente com este tipo de falcatrua que um prefeito realista tem que consentir. Fechar os olhos, se não quiser participar. Fechar os olhos e imaginar que, apesar da ladroagem, amanhã os filhos dos pobres que nascerem com paralisia infantil terão um lugar para se tratar. E este lugar só existiu em primeiro lugar, gostemos ou não, à propina paga para o processo andar. Se a propina não tivesse sido paga, acredite em mim, o hospital estaria mofado numa gaveta do Tribunal de Contas do Estado. Para mudar isso, só mudando a índole das pessoas, fazendo-as nascer de novo. Quem sabe na próxima geração, a sua já está corrompida. Pensando bem, sendo realista, acho que as próximas também estão. É a maldita hereditariedade. Ou é a maldita humanidade.”
Doutor Reinaldo achou que seria interrompido depois de expor opiniões tão carnais, mas a verdade é que ele também se ilude ao pensar que a plateia quer tanto ouvi-lo. Como ninguém pergunta nada, ele continua sua exposição, que pena que ninguém esteja chocado.
“Porque, ao fim e ao cabo, a única coisa que importa na política são realizações. Política não é para anjinhos incompetentes que não entregam nada e ao término do mandato pedem escusas e querem ser julgados pela ética. Parece mesmo que honestidade e incompetência são irmãs. Política é para gente sagaz que conhece o sistema, sabe manobrá-lo e sabe extrair dele o que é viável, de modo a no fim do mandato, em vez de se desculpar e usar a índole para atenuar as irrealizações, o político hábil esfrega na fuça dos eleitores quantos empregos seu governo criou, quantas obras concluiu, como o IDH, o PIB, o IDEB, o Gini e a renda per capita melhoraram, melhoraram demais, apesar dos escândalos de corrupção. Eu acrescentaria: em parte, verdade indigesta, graças à corrupção. Governo ótimo corrompe; precisa corromper para fazer a roda girar. É o que espero de um político: realizações. Empregue o meio que for, mas realize. Sem desculpas, sem moral. Apenas realizações. E tenha certeza de que é isso o que o cidadão comum espera também. A vida melhorou? Tem emprego? Tem vaga na creche, a fila do hospital anda? Sobra uma merreca para a farra? Então, foda-se: pode roubar à vontade.”
O agora homem realista dá uma golada no seu cavalo branco, inclina-se para trás na cadeira desconfortável, as costas doem, todo troncho, contorce-se, descruza as pernas, enche a mão de amendoim japonês e, para não perder o embalo, arremata, com a certeza de que suas palavras serão ouvidas:
“Se você acha que as duas coisas são conciliáveis, ética e competência, aí é com você, não vou discordar. Nesse dilema ingrato, que não fui eu quem o criou, ele apenas existe, hoje eu te digo que ficaria com a segunda opção sem nem pestanejar, escolha fácil. Pense nisso na próxima vez que falar sobre política. Realizações acima de tudo. Acima de honra, de ética, de caráter, de dignidade, de pai e mãe, de Deus e da pátria. Acima de tudo, realizações. Não existe nada mais importante do que os feitos. São os feitos, e não a ética, não a honestidade, que garantirão tratamento às crianças pobres com paralisia infantil. Mas nem todo fim justifica os meios, dirão os anjos. Esta é uma frase blasé que vem sendo repetida há séculos sem maiores reflexões por todos aqueles meigos que detestam os fins, e por detestá-los, descartam os meios. Detestam os fins que abalem o estado atual das coisas, mudanças que ameacem seus morgados. É fácil descartar os meios quando não se tem um fim. A frase original que Nicolau nos ensina é o inverso, e eu a endosso: os fins justificam os meios. Na política, há de se amar os fins. É por eles que a política trabalha. O político que não os ama deveria ser enxotado da vida pública. Do contrário, seria forçoso admitir que é preferível — e não é, não pode ser — muito zelo com os meios para fim nenhum, o que é o mote dos incompetentes que não realizam nada, falham em tudo e pedem desculpas chorosas por serem honestos e por pelo menos não terem roubado, como se a abstenção de roubar importasse mais que a consecução de tarefas indispensáveis, serviços que não podem esperar, devem ser prestados custem o que custar, ao arrepio da integridade; é da prestação deles, e não da honra e do caráter com que os administradores fracassados se jactam nos holofotes, que depende a minha gente que precisa de um hospital. Antes tivessem roubado e devolvido um município mais próspero. No final, a única coisa que interessa na realidade é se o hospital está ou não de pé. Cada dia em que estiver, mais vidas pobres são salvas. Não é escolha de Sofia; é a escolha real, com a qual a política real se depara: integridade e nenhum hospital ou hospital com vistas grossas? Falso dilema. A opção é óbvia, pelo menos para os humanos que vivem na terra e não no céu. Ou me entregas um hospital de pé e funcionando ou és um fracassado. E, por favor, poupe-me das desculpas moralistas. A culpa não é dos órgãos de controle, do TCE ou do MP. Se os culpa por tê-lo freado, foi porque deixou-se frear, porque faltou-lhe habilidade para fazer melhor uso do poder que a ti lhe foi delegado para concretizar projetos, entregar o hospital, em vez de se desculpar. Não acato suas desculpas. Sua fraqueza é indigna do poder popular”.
Honra e integridade são ursinhos de pelúcia dos riquinhos mimados que podem prescindir do serviço público. A falta deste não os afeta. Podem se dar ao luxo, porque é um luxo, esperar com paciência os trâmites da cadeia burocrática. O tempo corrido não os machuca. Deixo claro que tal impressão é minha, pobre Lucas, e não do doutor Reinaldo, alguém cuja visão só reforçou a que eu já tinha. Os riquinhos endeusam a transparência e pensam que o zelo para com os impostos que pagam importa mais do que os serviços que tais impostos custeiam. É gente morrendo e o cofre trancado, para o caso de uma emergência futura. Em nome do futuro, o cofre não abre, e quando o faz é só uma greta, maldita austeridade, maldito superávit primário, maldita dívida impagável, rolável. Eles acham que a transparência vale mais do que aula na escola, do que leito no hospital, do que a vacina na veia. Não vale. Jamais. O serviço público deve ser prestado com ou sem transparência. É melhor que seja com, por óbvio, mas se tiver que ser sem, que seja. Dispo-me do pedantismo ético e olho para a realidade bruta da qual tento tanto me afastar. A realidade dói e só por isso se dá ao respeito; se fosse meiga, dócil feito as cinderelas liberais, eu a dilacerava. Mas ela é tão visceral que nos despe da manta moralista que recobre a razão e oblitera a mente com a crença vil de que alguns valores na sociedade de mercado são inegociáveis, os valores angelicais em nome dos quais atos vitais são emperrados porque estão despidos de pudor. No fundo, pretendem pintar este mundo horrível com encantos de liberdade, esta deusa nobre tão superestimada que apreende o pensamento humano numa caixa de pandora, cuja chave para abri-la só os príncipes a detêm. Ô, Liberdade: tão endeusada e no fundo não sabemos o que fazer com ela. Porque não a temos. É uma ilusão, um delírio, uma utopia. Viver é uma prisão. Nasce-se preso à família, amadurece-se preso às obrigações, envelhece-se preso aos próprios demônios. Prisão total, do berço ao túmulo. Um gozo de liberdade e — o que fazemos? — nos aprisionamos. Almeja-se a liberdade para não tê-la e, por não tê-la, idolatrá-la. É insuportável essa liberdade em nome da qual vive-se perdido e encantado, querendo crer que ela existe, que somos livres. Pois não suporto mais sê-lo. Que falta me faz um comando, uma direção, uma restrição brutal de opções, um generalato. Alguém que me diga: “você fará isso e só isso, não é livre para mais nada”, e é justamente por se poder fazer só isso que o fará muito bem. Não quero ser o que puder ser. Exijo que restrinjam meu universo de escolha. Exijo que me ordene: “Podes ser professor ou peão, astronauta, não, astronauta você não pode”. E assim elimino mais uma possibilidade da mente. Quero não poder ser muitas coisas para que o pouco que eu possa ser, eu o seja de fato. Não quero cinco mil ofertas de emprego, três mil opções de lugar para morar; em meio a esse cipoal é que não saio do lugar. “Faça o que você quiser, é livre para tanto”. Pois é o que não aguento mais ser. Extirpo de mim o livre-arbítrio que é, sob todas as formas, uma maldição. Liberdade detestável por alimentar desejos e frustrações — o “poder ser” que não se concretiza. Por favor, eu vos imploro, esmague minhas opções — não sei lidar com tantas, perco-me, embaralho-me, escolheria melhor se não tivesse escolha. Feche meu leque. Dirija-me à via única. Saiba mandar, pois o que eu mais clamo nesta vida é obedecer. Chega de conselhos e estímulos, venha aqui e me ordene, necessito de cabresto e antolhos. Necessito que a mente pare de girar, sonhar e iludir. Não suporto mais dar voltas e voltar ao mesmo lugar de onde não se arreda um passo. Socorra-me do labirinto e conduza-me ao corredor. É nele que pretendo guiar-me. Direção única, sempre em frente, sem desvios, sem voltas, sem novas possibilidades.
Adrenalina para acordar, coletes para se prender, liberdade para obedecer. Servidão entranhada, amor ao poder. Poder de uns sobre outros. Poder de se impor. De dar o que pedem: governo. E eles vivem tentando nos convencer que um dia nós também podemos ser nobres, basta nos esforçarmos. Amanhã a escola tem que abrir e as crianças têm que comer. Se a licitação da merenda transcorreu com lisura, eu não sei, tomara que tenha transcorrido, desejo inútil; o que eu sei é que as crianças têm que comer, que os pacientes têm que se tratar, a escola abrirá e o hospital precisa funcionar. E esse imperativo funcional, sustentáculo governamental, sobrepõe-se à moralidade, porque assim deve ser, porque assim é o poder, porque víboras têm veneno, porque tanques não choram e porque a força sufoca a liberdade. Os fins justificam os meios na medida em que é vital que haja fins, sem os quais não há razão de ser ao poder. Se é para flexibilizar, flexibilizam-se os meios, nunca os fins. Os fins são tudo. Os fins são o que explicam e dão causa ao poder. Os fins são o próprio poder. E os meios, seus braços. Ampute-os e os fins não serão atingidos. Meios indispensáveis à persecução dos fins. Freiem os meios com contrapesos moralistas e tudo ficará como sempre foi, sem fins alcançados, eterna estagnação, vida e morte no monastério hereditário, avô, pai, filhos e netos, democracia familiar, dinastia estamental, o grande legado da manutenção do poder de sangue.
Quem são eles contra os quais se insurge? Os inimigos invisíveis, cuja devoção à invisibilidade nos remete ao nobre escocês, advogado da sua classe. Ora, eles são a tribo dos punho-cerrados, os vencedores. Vou te contar como agem.
Existe um seleto grupo de guerreiros que ronda as mentes de quem sonha um dia se tornar um membro. Com data de fundação imprecisa, sabe-se que o grupo ganhou muita força na América do Norte, de onde saiu a desbravar novas conquistas no mundo subdesenvolvido. Os guerreiros são individualistas e adeptos da meritocracia hierárquica. Acreditam que qualquer um pode, como eles, tornar-se um bravo vencedor, desde que se abstenham das distrações mundanas que nos desviam do rumo à glória; que perseverem, acreditem em si mesmos, e nunca, jamais, aceitem o “não” como resposta. Enfim, que projetem a mente para a vitória. Embora haja uma predominância masculina, as mulheres não são impedidas de ingressar — e ultimamente, ao que tudo indica, têm subido na escala exitosa — ao menos é o que os líderes machos garantem.
O rito de iniciação tem percorrido as mais variadas cidades do continente sul-americano; em geral prometem uma experiência transcendental capaz de libertar o iniciado dos grilhões que até então o impedem de gozar da vida na plenitude. Lotam templos sagrados com cartazes de boas-vindas nos quais se vê um punho cerrado em chamas arrebentando correntes, símbolo característico da tribo. Vestem roupas formais e cumprimentam-se com simpatia e afeto; os recém-ingressados são os que demonstram estar mais à vontade e não raro disparam risadas exaltadas. Os antigos, ao contrário, são reservados, e alguns não disfarçam a fama de carrancudos. Creem ser necessário o semblante como sinal de autoridade. Não esbanjam ao comer, não riem alto, falam pouco e só entre si, a não ser quando são convidados a subir no altar onde dispensam a veneração concedida apenas aos grãos-mestres e onde revelam os segredos da superação à legião que sonha se tornar um punho-cerrado.
Sobre o altar incide um jogo de luz que destaca a posição de quem tem a honra de nele ensinar. A prece começa em geral de forma anedótica, em algum lugar da juventude guerreira tão posta à prova das agruras de quem veio ao mundo triunfar. São, irremediavelmente, trajetórias sofridas, de dor, sangue e derrotas, sem as quais seriam indignos da vitória maior. Confiam no propósito da provação e, embora louvem divindades diversas, em comum reina a crença maior no autoconhecimento e na força de vontade do Hércules pessoal.
Os cânticos sagrados são retirados das sagas e epopéias, e parece que não há uma só roda de reza cujas lentes divinas percam o flagra de um crente emocionado. A emoção é, afinal, o objetivo do ambiente, a razão pela qual todos se reúnem para celebrar o começo de uma nova jornada, de um novo amanhã, de um futuro vencedor. Porque no templo sagrado dos Punho-Cerrados a vitória é tão certa quanto os aplausos — e todos vocês que me ouvem aí debaixo, conclama o grão-mestre ensandecido, amanhã estará sentado aqui do meu lado, tenho certeza, basta acreditar.
A comunidade Punho-Cerrado tem planos audaciosos de expansão. Para tanto, cada novo membro se responsabiliza por iniciar outros três, sob o risco de ser reprovado no período de experiência. Há uma métrica sofisticada de contabilização de novos candidatos. Para cada desafio, uma meta. Os que alcançam sobem um degrau na escada da vitória. Aos que fracassam são dadas duas novas oportunidades, o máximo que a tribo tolera de pusilanimidade. Embora tal preparação aparente uma rigidez excessiva, é comum entre os próprios iniciados a criação de subgrupos separando vencedores e vencidos, e estes, não bastassem as humilhações dos rivais, culpam-se a si próprios pela derrota, porque não se esforçaram o bastante. Todos compartilham da ânsia em competir, mesmo sabendo que o destino só aceitará um único vencedor no grupo, porque a magia dos Punho-Cerrado reside justamente na sua brutal seletividade, na honra máxima conferida ao guerreiro que esmagou os concorrentes.
O que causa mais estranheza no observador não-familiarizado com a seita é a capacidade do enredo de iniciação convencer quem parece estar ali suplicando para ser convencido. Nisso, não há dúvidas quanto à eficácia do rito. Muitos se dizem transformados e juram retornar mais fortes, prova viva da transcendentalidade, pondo em prática tudo o que aprenderam, nem que tenham que aumentar a oferta do dízimo, já que para os Punho-Cerrados não há nada mais sagrado que as oferendas. São elas que apaziguam a alma e purificam o espírito do iniciado, abrindo caminho, no corpo e na alma, para a consagração.
Embora o roteiro seja o mesmo em todos os lugares por onde a tribo passa, a experiência de cada indivíduo, essa é bastante singular e profética. Desde o primeiro ato, asseguram os mestres, já se tem uma noção se o iniciado é digno da glória prometida. E ainda não se viu homem na terra que soube desvendar o mistério sobre como esta comunidade consegue com um misto de auto-ajuda e força varonil garantir sucesso a todos os homens e ao mesmo tempo selecionar só um.
Infelizmente, porém, os Punho-Cerrados já anunciaram o encerramento de novas filiações. Ao que tudo indica, o grupo já cresceu tanto que daqui a pouco correrá o risco de se esfacelar se não recuar às tradições originais. É preciso se manter restrito para continuar alimentando os sonhos de quem está disposto a sacrificar tudo para ser aceito no clã. Os grãos-mestres já avisaram que esta será a última turnê; será a última chance dos mortais descobrirem-se vencedores integrando esta que é a comunidade mais adorada no admirável mundo dos homens livres. Então não perca tempo. Largue tudo e junte-se a nós. Erga seu braço. Cerre o punho. Quebre a corrente. E grite: sou um vencedor! Você já é um só de estar aqui.
Enquanto os honestos não entregam o hospital da Berolinha, o Bom Jesus se vira com o que tem, seu bom e velho São Vicente de Paulo, fundado em 1914, mesmo ano dos clubes defuntos, e que conta hoje com cinco ambulâncias, cento e vinte profissionais, apenas quatro especialistas, e onde, numa tarde que já não me recordo de qual mês de 1996, na sala de triagem, mendigos com cateteres vesicais vomitam no chão e afugentam pacientes que não querem sua presença por perto, melhor para eles que podem agora deitar num dos bancos vazios; jovens chegam estropiados de bala e descobrem que o ortopedista ainda está a caminho; este não é o caso do neurologista, que só poderá atender velhinhos dementes como o senhor Osvaldo na manhã seguinte, e a madrugada, como todo paciente e acompanhante sabe, será longa; ninguém ali tão fodido, porém, quanto esse indigente estirado no chão com as costas toda queimada em carne-viva, terceiro grau, e geme, geme pra caralho. Meu Deus, por que ninguém atende o homem, já? Quem o vê, se apavora. Cogita interpelar as enfermeiras, mas hesita. Olha para o balcão de atendimento e não vê ninguém. O sujeito se revira no chão, geme, geme sem parar. “Ele está no lugar ideal. Não posso ajudar mais que os médicos”, pensam os espectadores, que atravessam o corredor da enfermaria com a imagem da infâmia na mente e os gemidos no ouvido, mas não no coração, para não se exceder no melodrama. É uma cena que vai passar, dentro de cinco minutos será esquecida, não será problema meu, nunca foi. Que sejam então cinco minutos breves porque as imagens são fortes demais. Isso aqui não dá pra mim. Dois dias aqui e me desumanizo, não existe mais eu. É dor pra todo lado. A vida é severa demais, não dou conta de suportar. É uma desgraça ter vindo ao mundo. Queria muito não estar aqui. Só não me mato porque não tenho coragem. Mas que morrer é melhor do que viver, só pode ser. É o que compraz. Viver é uma desgraça. É dor do início ao fim e os únicos remédios contra elas, contra a dor e contra a vida, são alienação e morfina, irmãs gêmeas que atuam no corpo e na mente com a mesma força com que agem a indiferença e a inação.
À farmácia do hospital a mulher preta caminha com dificuldade, toda torta nas juntas que a artrite corrói, e carrega consigo uma pasta escolar rosa-choque, com um dos elásticos soltos por excesso de volume ou por defeito de fábrica.
“Bom dia. Em que posso ajudá-la?”, pergunta a atendente, cujo rosto não lhe é familiar. Tem idade para ser sua neta. Usa aparelho dental. Alguém que passa incólume ao preconceito que impinge vileza pelo olhar e pela seriedade.
A mulher abre a pasta sobre o balcão e começa a revirar a papelada. Há exames de sangue de dez anos atrás. Mas desta vez está segura de que não falta nada. A organização é a arma contra a burocracia que a adoece.
O ventilador na parede precisa ser ligado no máximo para ventilar o mínimo. A fila do raio-x contorna o andar e toda hora aparece um usuário perdido querendo saber onde fica a sala de vacinação e o oftalmo. Ela saca um canhoto do calhamaço e entrega à atendente, desculpando-se pela agitação. Quem lhe dera ter agora um leque!
“Preciso deste medicamento, minha filha” — e entrega-lhe a pasta aberta.
A atendente a olha. A mulher transpira. O calor é de lascar. Pede que se sente. Pega a pasta e pede licença. Retorna vinte minutos depois, com um blister na mão.
“Dona Marina, há quanto tempo a senhora está tentando retirar este medicamento?”, pergunta a atendente.
“Há seis meses, minha filha.”
“A documentação está toda certa, Dona Marina. Aqui está o seu remédio. Peço desculpas pela demora. Já era para lhe ter sido entregue cinco meses atrás. Mas lembre-se que a validade dos exames é de seis meses. No mês que vem, para retirar o medicamento, a senhora terá de refazer todos os exames”.
“Mas minha filha”, queixa-se a mulher cabisbaixa, “a minha saúde vai mudar tanto assim em um mês?”
“Bem, isso só o médico para dizer, Dona Marina.”
“É este o problema, minha filha. Levo dois meses para conseguir vê-lo. E quando o vejo, ele só faz me pedir exames. Até fazer os exames e pegar os resultados, eles perderam a validade.”
A atendente, que não se importa em ser chamada de filha, não tem o que dizer a não ser lamentar e culpar o sistema, sem o qual, garante, seria o caos. Pelo menos hoje a Dona Marina volta para casa com o seu remédio. O que a boa vontade não faz pelos usuários do SUS?
“Você poderia, então, dispensar uma quantidade maior?” — insiste Dona Marina só para dizer que não tentou. Mas ela já sabe a resposta.
“Não, Dona Marina. Infelizmente, eu não posso. Este remédio é controlado.”
“Mas eu tenho aqui uma receita com a prescrição de três caixas.”
“Esta receita já está vencida, Dona Marina.”
Mesmo assim, a mulher não esconde a satisfação. É sua pequena grande vitória. Após meses de peregrinação, finalmente conseguiu trocar o calhamaço de exames e laudos por uma cartela com trinta comprimidos e assim economizar oitenta e nove reais que a ajudarão no gás, na luz e na condução.
Não me espantaria se essa mesma reflexão que me atormenta, atormentasse a trupe de palhaços que uma vez por mês invade a ala oncológica para levar afago às crianças não-abençoadas às quais, ao menos diante dos voluntários, não choram. Num mesmo lugar, este hospital, mundos tão opostos, marcados pelo hibridismo no tratamento clínico que, para se financiar, separa o atendimento entre os que podem pagar dos que pagaram com impostos. Na ala particular, os pacientes ficam em quartos privativos com tevê, ar, fraldas e lenços umedecidos de ursinhos fofos contra assadura. A atenção é constante, com visitas periódicas da equipe médica multidisciplinar. Tem o clínico-geral, o ortopedista, o cardio, neuro, gastro, infecto, fisio, nutricionistas e uma tropa de enfermagem que se reveza com a ajuda dos assistentes, em plantões que demoram uma eternidade a acabar longe do caos lá de baixo. Os corredores são arejados e desembocam num jardim reservado aos acompanhantes, os quais, ali na companhia dos colibris, podem fumar e aliviar a carga pesada da mente.
Nas alas públicas, um só plantonista se desdobra madrugada adentro para dar conta de pacientes que se conta em dezenas e que não param de chegar, selecionando sua atenção aos casos mais dramáticos, como o do indigente que gemeu por cinquenta e dois minutos com as costas lapeadas de fogo. Aqui as enfermeiras não têm resposta. O neuro não vem hoje. Mas todos dão o seu melhor com os recursos que têm. Há quem diga que fazem mágica. A tevê só pega se fizer o pix à milícia, vinte reais a diária. Faltam lenços e fraldas. O cardiologista demora a passar, talvez só venha amanhã, e amanhã demora. O psiquiatra pediu exoneração. A nutrição é padrão e o nefrologista, um luxo, ainda se lembra do juramento, embora cada vez menos, cansado que está de trabalhar sem as mínimas condições, condições as quais, de mínimas, convenhamos, não têm nada. Gostaria de crer que as coisas vão melhorar, mas é um médico, não crê, e até que desista do Brasil, há de se conformar. É esta a brava trupe que tenta manter os outros vivos e que sem culpa tanto falha, vitória da finitude, aferra-se, para meu espanto, aos sermões da transcendência com ou sem religião, estes que até ateus atraem com a oferta de apoios mentais úteis na lida diária de cenas que hão de se repetir amanhã e sempre, é a vida.
Embora cada acompanhante reze por todos, vê-se o quanto os quartos coletivos ressuscitam na angústia a solidariedade, cada qual crê com firmeza que os seus entes são especiais e por isso merecem atenção especial. Mas a realidade os rebate: por que são pobres, os especiais terão de se contentar com o plantonista exausto, que gosta de dizer, mesmo que nem todos acreditem, que se falta material humano, não falta humanidade, tão corroída pelos fatalismos que o homem não consegue vencer.
O Bom Jesus tem hoje vinte e oito escolas municipais, três estaduais e é só sobre uma destas que pretendo falar. O colégio estadual Padre Mello, tributo ao colono e ao clero português. Tinha uma fachada toda amarela e, recentemente, a pintaram de azul, mas a estrutura permanece igual. Conta-se vinte passados ao longo do corredor que liga o jardim à porta de entrada, contra a qual se estende as costas do senhor Roberval, este homem que só anda com a camisa para dentro da calça, transpira feito um porco e que quando sorri os olhos desaparecem em meio as bochechas róseas, um pimpão, ele que, de segunda a sexta, das nove às cinco, apressa as crianças que chegam e se despede dos adolescentes na troca de turno, e que falta lhe faz um apito nesta escola cujos métodos disciplinares tanto se diferenciam dos colégios militares nos quais os pais disputam vagas para matricular os filhinhos que não respondem ao corretivo familiar. É o lobby militarista a contagiar civis autoritários. No jardim de entrada, há um brinquedo com barras de ferro coloridas e enferrujadas, feito para crianças se empoleirarem — e foi-se o tempo em que era preciso coragem para alcançar o topo. Hoje as brincadeiras estão tão sem graça. Há duas gangorras, três balanços, um gira-gira e dois troncos de madeira fincados no solo, amarrados por uma corda na qual ninguém sobe há pelo menos nove anos; na verdade, são todos brinquedos subutilizados e a explicação não tem a ver com descaso, embora quando chove vira um lamaçal, mas tem a ver, isto sim, com uma simples mudança geracional. Ninguém podia prever na década passada que os futuros jovens do fundamental prefeririam tombar muralhas feudais e se tornar o maior assassino cristão do medievo em disputas individuais com joysticks e óculos de três dimensões a correr ao ar livre e se estropiar com quedas em balanços e gangorras que, para os antigos, eram enaltecidas vinte anos mais tarde como exemplo máximo de carpe diem infanto-juvenil. Já quanto aos adolescentes do ensino médio, com relação a eles, aí sim, podia-se prever que se achariam mais velhos do que são e por isso recusariam brincar em brinquedos que os rebaixariam de volta à infância, nem que para isso tivessem que conter a vontade de brincar. Em suma, no Padre Mello ninguém mais brinca nos brinquedos da década passada, caíram em desuso. Ainda se vê uma correria aqui e outra ali, mas, no geral, quando o sinal toca, o alvoroço afunila em direção às salas de aula, nas quais os professores ainda chegam com ótimo humor, não esperam maçãs e com uma tolerância esplêndida ao atraso, afinal não somos ingleses, felizmente. Ali a pontualidade permanece como virtude inglesa pequena, coisa que ela nunca deixou de ser, tão pequena e medíocre que só serve de maquiagem à ansiedade puritana. Ética, honestidade e pontualidade são substitutos ideais à competência numa sala de aula. Quando não se tem o que ensinar, pelo menos chegam no horário. Não é curioso que os melhores professores, os que mais sabem lecionar, sejam todos, sem exceção, impontuais? E os piores, os que se irritam com uma contestação bem formulada, os que se aferram ao arcaísmo parnasiano e ao bom e velho método jurássico, os que fazem do plano didático um escudo contra a falta de criatividade, sejam os primeiros a chegar e a martelar o indicador no pulso como se o tempo fosse a métrica da aprendizagem?
São treze salas, divididas em três andares. Houve o tempo em que a divisão por andar se dava por ciclo: o primeiro andar para o fundamental um, o segundo para o fundamental dois e o terceiro para o ensino médio. Tal divisão funcionou muito bem sem que ninguém a contestasse, até que num dia qualquer, aposto que foi numa segunda-feira, quatorze horas depois da reportagem bombástica no Fantástico denunciar o esquema de superfaturamento de obras na prefeitura de uma cidade fantasma do Mato Grosso, fato tal que hoje ninguém mais se lembra porque o passado o apagou, assim sem tanta pretensão, a nova diretora decidiu misturar tudo, colocou quinta série ao lado do segundo ano do segundo grau, oitava série de frente com o primeiro ano do ensino médio, rifou a separação alfabética nas salas de aula, deixando a cargo dos alunos escolher ao lado de quais coleguinhas gostariam de se sentar, os professores eram os mesmos, afinal, e as salas abandonadas de frente ao banheiro em breve serviriam às tardes gloriosas de carteado; foi uma mudança radical e extraordinariamente bem aceita, graças à qual fui parar na mesma sala dos meus dois melhores amigos, Bruno e André, e graças à qual a diretora Marta caiu no gosto dos corpos discente e docente, para sempre lembrada como uma gestora ultraliberal, compreensiva e cativante, a mulher que durante os quinze anos na coordenação se orgulha por ter recusado todas as cento e quarenta e três cartas de convite à expulsão carimbadas pelo coordenador Roberval, o repressor, uma mulher que realmente enxergava o potencial criativo na desordem e por isso hei de reverenciá-la por toda a minha vida. É a primeira pessoa que me vem à mente quando penso a quem doaria um rim no dia em que ouvir do chefe da enfermaria que já passou da hora de aproveitar um pouco mais da vida. A cada instante que passa, marca o relógio da parede, não tem volta — e a ampulheta da vida não para te roubar tempo medido em energia e em grãos de areia.
No fundo da escola é onde fica a quadra poliesportiva, cuja finalidade maior é desde sempre, sem dúvida, o futebol, pois para o basquete deve ter sido utilizada não mais que sete vezes e para o vôlei, duas, a não ser, claro, nas aulas de educação física em que tais modalidades eram incentivadas. Deixando a escolha livre, o futebol massacra, entre meninos e meninas, sem distinção, e é por isso, não pelas conquistas, que ele é tão aclamado no Bom Jesus. Nas ruas sem saída e nos terrenos baldios, a bola que corre é chutada, esférica ou de improviso. Poderia se arranjar com facilidade um barbante, amarrá-lo em dois postes, cada time para um lado e bola para o alto. Vôlei improvisado. Não digo que nunca o tenham feito, mas reafirmo que o que a molecada prefere mesmo é chutar a bola. Preferiam antes, preferem ainda. É verdade que o piso da quadra poderia receber uma tinta, sem a qual o jogo continua sendo absolutamente viável, apesar das dúvidas de onde posicionar a marca do pênalti, cinco ou dez centímetros que não fazem falta quando a bola entra estufando o ar na falta da rede, para então surgir a polêmica se não teria entrado pelo lado, mais um não-gol comemorado.
O que inviabilizou a quadra por duas semanas, isso sim, foram dois refletores quebrados. A demora na reposição acabou quando decidimos fazer uma vaca e incentivamos até quem não ligava para o troço a colaborar, com o argumento de ser um bem público, pelo qual devemos todos zelar, com a condição prontamente aceita pela diretora Marta de que a quadra ficaria aberta aos fins de semana e aberta para o público em geral, o que incluía os pedreiros, os bêbados e os filhos das donas de casa — na prática, só os segundos a utilizaram. A ocasião serviu para mostrar que a escola pública pode ter variados fins, um dos quais Marta bem soube aproveitar. Alugou o espaço para as chopadas da faculdade de Farmácia recém-inaugurada no terreno ao lado, festas nas quais reinava o pudor, apesar da alegria; ou melhor: graças à alegria. Eu fico tão espantado com as cenas ordinárias, tentando compreender, afinal, por que, com tanta pegação, os estudantes não se libertam e realizam ali mesmo suas vontades à revelia da intimidade casta. Talvez seja porque as vontades também sejam castas. É preciso apelar às quatro paredes da intimidade, onde tudo acontece e se alardeia na ausência do vigiar e punir.
Com o dinheiro arrecadado das festas castas, a diretora deixou de mendigar recursos à secretaria de educação mão de vaca, vai existir um departamento municipal mais mesquinho lá na casa do caralho, nunca tem dinheiro para nada, só para campanhas, e passou ela própria, a Marta, a comprar novos quadros verdes, gizes tricolores, brancos, rosas e azuis e carteiras, inclusive para os canhotos, minoria privilegiada. A iniciativa, infelizmente, foi sabotada por uma ação do Ministério Público nascida da queixa da organização dos moradores conservadores do bairro. Inexiste na empiria histórica organização de moradores progressista. Reuniu a vizinhança em defesa da paz e da tranquilidade, brotou a tradição e o gosto imortal pelo proibir. Uma pena. Na minha rua, fui forçado a rasgar uma dessas faixas antifarristas em protesto ao hedonismo — no meu conceito, demasiadamente puritano — aos blocos carnavalescos. No lugar, estendi uma faixa permissiva na qual se lia:
“Foliões, por que tão contidos? Libertem-se das angústias! Não tem hora para acabar. Pode tudo, inclusive urinar na minha calçada. Amo uma latrina. É fisiológica, é humana. Não permitam que ceifem a ação despudorada. É com mais despudor que ela se fortifica. Não desejem; façam. Aqui nesta rua pode tudo, sem limites e sem fim.”
É claro que o MP continuou na mais alta conta da diretora, que apenas neste caso pontual queixou-se do rigor de um órgão que se diz público e o é de fato, porém na hora de se decidir por um público contra o outro, de um lado, velhos ranzinzas e viúvos carcomidos, e do outro, a juventude foliã e os donos de bares antifarristas, porém capitalistas, parece o órgão pender sempre a favor do passado, tendo em vista a garantir a paz sepulcral num ambiente que desgraçadamente por tão pouco tempo abriu-se à divina farra. A proibição levou os jovens idealistas a propor um abaixo-assinado, cujo apoio foi pífio, fazendo constar a nota de repúdio segundo a qual só reacionários execram o hedonismo e só eles mesmos para gostarem de festas desde que com ordem e embaladas pela fanfarra do exército.
Tínhamos a mesma idade durante a maior parte do ano, exceto por três meses durante os quais eu me gabava por ser mais velho. Em maio de 1996, eu e André tínhamos treze anos. Era magro feito um espeto, a ponto de, sem camisa, revelar as costelas que rasgam o tórax franzino junto com manchas brancas às quais ele não sabia explicar bem o que eram, micose ou vitiligo. Tinha a mesma estatura que a minha, a média para meninos esguios, talvez uns três centímetros a mais, pernas de cambitos, a pele morena, os olhos castanhos, o nariz pontiagudo e o cabelo castanho-escuro, preto quando molhado, penteado sempre à direita, como se a vaca o tivesse lambido. Assim se apresentava todas as manhãs na escola, com seu uniforme impecável, a camisa passada pra dentro da calça, o rosto liso como o de um bebê, segurando a lancheira que a mamãe preparava, na qual continha invariavelmente duas maçãs, um sanduíche de salpicão de frango e um pedaço de bolo de cenoura; o cabelo escovado, as unhas aparadas, o cadarço amarrado com dois nós e a mochila limpa de adesivos e broches, isso quando não esquecia de borrifar sua água-de-colônia, cujo odor exalava pelo cangote, não raro provocando espirros na menina sentada à sua direita, uma menina que eu a considerava atraente graças ao meu gosto vagabundo, apesar da timidez detestável. Ela se chama Sara, a garota a quem nunca recorriam atrás de conselhos, só de ajuda na hora da prova, mas cuja impressão deixada, com cinco minutos de conversa, era de que éramos tão idiotas.
Tamanho zelo pela aparência contrastava com o desleixo do pessoal sentado três fileiras atrás, meninos vestidos com camisas amarrotadas e calças surradas, às vezes com furos de um dedão no joelho, e sem nenhuma lancheira, pois na hora do recreio filavam o lanche dos outros ou penduravam a conta na lanchonete à revelia dos pais, os quais eram surpreendidos no final do mês com a notícia de um débito a ser quitado. Ainda que aqui se note diferenças comportamentais significativas, demarcadas pela topografia da sala de aula, seria um engano supor que tais diferenças interferissem no desempenho escolar. Isso porque havia um pirralho chamado Alexandre Tebaldi, filho dos donos da rede de supermercados Varejão, o sétimo mais baixo da sala, que garantia a nota de geral, menos a de Bruno que era prodígio, para a indignação dos professores que não podiam entender como alguém que passava a aula inteira infernizando os colegas, tocando o terror, ia tão bem nas provas. O filho da puta era esperto pra desgraçar. Tinha o dom de distinguir qual parte do conteúdo importava, e provavelmente cairia no teste, do resto que era só encheção de linguiça para preencher o tempo durante o qual ele aproveitava para fazer a lição da aula anterior e depois ficar livre em casa, isso enquanto atirava jatos de papel no ventilador e zombava dos trajes formais, desnecessários naquele calor desgraçado, do professor de espanhol, o guatemalteco Solano Ferraz, o mais linha-dura da escola. Matemática, Alexandre nem estudava. Deturpava fórmulas seculares e resolvia as equações por lazer, se se sentisse desafiado. História e geografia, lia seus grifos na véspera pra refrescar a memória e pronto, ia pra rua jogar bola. É claro que um sujeito como esse, ardiloso que só, tinha que ser generoso. E era ele, o desordeiro sentado na última carteira, quem passava cola para os estudiosos e compenetrados. As melhores notas vinham de trás. Porque primeiro ele garantia os seus do fundo, assinando por eles, se fosse o caso, e depois trocava e resolvia a sua, errando três ou quatro questões de propósito para não levantar suspeitas, “ninguém precisa tirar dez se sete já basta”, ele dizia, além de que nota máxima é obsessão de gente caxias ruim de cama, o perfeccionismo brocha, e depois atendia ao público da frente fazendo voar bolinhas amassadas, uma vergonha para as meninas que anotavam tudo para não aprender nada e, no aperto, acabavam aceitando a ajuda malandra com o orgulho ferido.
Sobre o senhor Ferraz, a verdade é que ninguém sabia como ele tinha vindo parar no Bom Jesus e no Padre Mello, com tantas escolas e cidades melhores para trabalhar. Era muito reservado, metódico e ríspido, e quando tentava driblar essas características e transparecer mais amigável, fazia piadas que só ele entendia, mas ainda bem que não se importava com o ridículo, talvez até gostasse. Senhor Solano… no fim das contas, não era mau professor e um bom sujeito, como viemos a constatar na nossa formatura da oitava série, quando tomamos nosso primeiro porre incentivado por um professor. Nunca mais se soube dele. Do Bom Jesus se mudou faz tempo, sabe-se lá para onde foi, talvez tenha voltado ao seu país. Ouvia-se boatos de que era gay. Não sei se acredito e é indiferente se fosse. Já ouvi isso tantas vezes por aqui. Nessa cidade, é preciso ser visto acompanhado para calar as más-línguas, e há as companhias certas. É uma cidade que preza pelas aparências e é por isso que muita gente não vê a hora de fugir daqui.
Todo fim de agosto é aniversário do Bom Jesus. O parque de exposições abre para rodeios, concursos de vaca leiteira, leilões beneficentes, circo itinerante, roda-gigante, carrinho de bate-bate e carrossel, mulher monga e a casa do terror, o kamikaze, samba, dumbo e a roleta-russa, pescaria, tiro ao alvo, boca do palhaço e arremesso de argola, acerta uma, leva a caixa de fósforo, acerta duas, fatura um a algodão-doce, acerta três, um urso de pelúcia para dormir abraçado com medo de bandidos. Os shows começam às cinco da tarde com artistas locais e música caipira, modão e gospel, depois duplas sertanejas se sucedem no palco cantando as mais tocadas nas últimas semanas até que finalmente o Daniel encerra a noite de atrações prometendo retornar no ano que vem. A preferência pelo sertanejo é fácil de explicar. Atende ao gosto de um público conhecido por ouvir sempre as mesmas canções e por nunca vaiar o artista, além de um terceiro motivo, o principal, o fato de que os sertanejos têm sido há décadas os cantores que exigem menos extravagâncias contratuais, embora exijam algumas, sobretudo os decadentes com suas cafonices florais. Eles aproveitam os aniversários encavalados dos municípios vizinhos e fazem logo uma turnê pela região; hospedam-se em quartos compartilhados de hotéis de duas ou três estrelas, de preferência duas para economizar e, na falta destes, aceitam a suíte no motel em troca de um incremento no cachê de início de carreira que é o que com esforço e bagatela a secretária de cultura, que é amiga de infância do prefeito, pode ofertar. Fazem shows curtos e vários, faturam na quantidade e em todas as aparições forçam uma identificação com o público com lembranças que aproximam o Bom Jesus de suas infâncias tocando o gado, abrindo porteiras e esporeando éguas no interior de Goiás. Somos todos gente do campo, gente simples, trabalhadora, que dá um duro danado e que carrega o país nas costas, afinal é o campo que alimenta a cidade.
São festas animadas que varam a madrugada e que dão fama a uma população que, por falta do que fazer, adora uma farra, condizente com o puritanismo da alma que impera em tudo e sobretudo no lazer. Foi nesta festa, em 1997, um ano e meio depois da morte do irmão, que Lucas apresentou Sara ao André. Já se conheciam, na verdade, eram agora colegas de sala, mas não se falavam, porque André queria, mas não agia, e Sara tampouco. E assim agem os intermediários, interligando desejo e inércia. Se ela quisesse demais, também não agiria, só daria sinais — mas sinais não são nada, só o que importa é o ato, e nem sinais ela dava. Eu me pergunto se é assédio, com as mãos para trás, propor a uma amiga uma foda inocente, mas sem sinais, na lata. Ela, ao que tudo indicava, parecia interessada, é o que deduzo puxando na memória aquela noite tão sem graça. Era tão tímida que sua voz só foi ouvida depois de três semanas de aula, e foi um pedido de licença para sair mais cedo porque sua avó tinha passado mal. Timidez contestada. Com o tempo viu-se que não era tanto. Sabe, a timidez também pode ser demolida e eu conclamo os tímidos a demoli-la. Estou farto de enigmas a serem decifrados pela imaginação. Eu quero ver a putaria estalar — não na mente, no ato. Que seu silêncio era, na verdade, firmeza. Franzina e alva, se ficasse envergonhada, apareciam manchas vermelhas no braço e no pescoço, as quais ela despistava dizendo sofrer de alguma alergia. Tetas, miúdas demais. Sorria feito um rato. Dominava química e detestava Jota Quest. E o rabo? Sim, aqui o negócio é carnal. Devo me desculpar por gostar de carne? É ou não é medieval a crítica quanto à objetificação do corpo? Objetos não dão prazer? Que objeção se faz ao prazer? Um dia terás de prestar contas a Éden. Afinal, o que tens contra o prazer? Prefere sonhos angelicais? Tem que ser meigo? Ele gosto com força, você pode demonstrar? Lucas a achava sem graça pela falta de vulgaridade, a virtude que mais estima, embora a venerasse pela capacidade de não falar bobagens. Menina quieta, tinha poucas amigas e não ia às festas por falta de amizade, mas porque as achava enfadonhas e regradas. O que eu queria da Sara era que ela fizesse de mim o seu objeto descartável, e me castigasse sem timidez. Mas infelizmente isso nunca aconteceu e assim a tara ficou só na imaginação, onde taras têm por hábito ficar.
O flerte começou quando Lucas falou com ela depois da aula, não me lembro bem o quê, talvez alguma menção à prova de geografia. Aquela menina, que movia montanhas para não parecer delicada, e fracassava, que não sabia onde enfiar a cara quando ouvia um elogio, começava a dar sinais de uma malícia discreta, uma coisa deliciosa, que ele torcia para ser tão real quanto indiscreta. Ele não se insinuava e talvez por isso ela tenha gostado. Sempre delegou a elas a iniciativa, pois feminista. Que ajam, eu aguardo. Venham me dominar, eu imploro; do contrário, não acontecerá nada e tudo tem sido assim em matéria da carne, o fantástico mundo dos desejos que não acontecem. Estamos numa época em que nossos colegas gostavam de garotas, não tanto quanto de bola, mas já houvera o desabrochar, horripilantemente casto, nada de assobios, coisa de peões maltratados, só comentários no quintal depois da pelada, tudo o que jamais se realizaria. Pintam fantasias que não valem uma punheta. Desnudam sonhos. Conheças a ti mesmo e reflita sobre o quanto és impingido a excitar-se mais do que seus estímulos pedem. Éramos tão imaturos e ingênuos, muitos mais castos do que gostaríamos de ser. Mas é o que éramos. Lembro-me que depois daquela encenação besta, ela passou a não desviar mais os olhares dele, acho até que os procurava. Até que na semana da festa, que ia de quinta a domingo, entrada franca e uma programação de merda, ela chegou perto dele e perguntou tremendo de vergonha se ele ia, já sabendo a resposta, porque, na falta do que fazer, todo mundo vai nessa festa, é o aniversário da cidade, bem menos divertida do que idealizada, porém melhor do que novela. Combinaram então de se encontrar lá no Kamikaze, contanto que não fosse um encontro intencionado de um casal que com catorze anos não sabia ainda como se tocar, e tanto ele quanto ela culpava a natureza por ainda não desejar, mas um encontro de colegas, se é que já se consideravam assim. Na quinta, eles se viram e não se falaram. Na sexta, cumprimentaram-se, mas ficaram sem graça, ele mais do que ela, reinou o silêncio, e quando isso acontecia, e sempre acontecia, Lucas logo inventava um pretexto para se desvencilhar e não ficar com cara de tacho. Detestava o silêncio em frente delas. A melhor maneira de esconder a vergonha é desistir do que a provoca. Garotas não são prêmios pelos quais tenhamos que batalhar. São só garotas. Nada demais. Eu não tenho que me esforçar. Já vou ter que me esforçar por dinheiro e reconhecimento. Prazer precisa vir fácil. Elas precisam estar decididas e precisam agir, em vez de só sinalizar. Foda enigmática é passatempo de don-juans apaixonados. Eu não estou apaixonado. Venha, escancare e faça. Não moverei uma só palha.
Já no sábado, depois de alguma insistência, tia Vilma liberou o André a ir conosco de novo. Já tinha custado muito a liberação na noite anterior. A matriarca temia o sábado por ser o dia mais cheio. Lembro que Fátima conversou com Vilma por telefone e a tranquilizou que não havia perigo algum. Não, a festa não era do capeta. Não, não vão se drogar. Não, não vão se embebedar e entrar no carro dum estranho e depois só Deus sabe no que essa merda vai dar. Eu, Fátima, no lugar deles, é o que faria. Entraria no carro sem nem pestanejar. “Um estranho, por favor, a vida está tão sem graça”. Mas não sou eu; são eles e são castos. Muitos acidentes de carro na estrada de Apiacá, é verdade, estou sabendo, mas não acontecerá com eles.
“Tranquilo, Vilma, os jovens de hoje não sabem como foram os anos sessenta e são bem menos rebeldes do que você imagina. Já não querem mudar nada. Seus ídolos são os seus pais, veja só que coisa revolucionária! Na verdade, são tão contidos que às vezes me convenço de que morrerão de tédio. Como as crianças de hoje demoram a crescer. Desculpe o desabafo. São tão mimadas e dependentes. Com quatorze anos eu já tinha fodido com três filhos dos amigos do meu pai, já que o próprio pai não me comia. Hoje o meu filho de catorze tem vergonha de se tocar. E ainda acham que a liberdade atrai; é o contrário — é reprimindo-a que a realidade sai.”
São dez para as dez quando Daniel sobe ao palco, sacode uma perna para cada lado no ar e arranca das virgens aquela histeria. Tivessem a chance de maltratá-lo, não fariam nada, ficariam paralisadas, inertes. Berram pelo intangível, pelo que não podem ter; porque se pudessem, se fosse algo real e concreto, a timidez as travaria. Estávamos mais interessados no Kamikaze. E foi na fila deste brinquedo que avistamos Sara. Ela veio até a gente, perdendo sua prioridade na fila, deu um beijo no rosto de Lucas, que eu achei ter sido no canto do lábio, mas foi impressão minha, e se reapresentou a André, como se estivessem se vendo pela primeira vez, já que as anteriores foram tão chatas. Conversaram sobre futilidades, ela puxando assunto com Lucas e André respondendo por ele, exprimindo seus gostos e perguntando: “e você?”. Quando chegou nossa vez, devido à disposição dos assentos livres, acabamos, eu e Lucas, indo para um lado do brinquedo, e André e Sara, dois espaços à esquerda, sentaram-se lado a lado. Bem que André tentou esconder o medo, mas lá no alto foi visto de olhos fechados, doido para a atração acabar logo e voltar ao seu chão. Depois fomos noutro brinquedo, o Samba, um troço que chacoalha e deixa a gente tonto. Lucas insistiu e voltamos, a contragosto do André, no Kamikaze. Enquanto um colocava os braços para fora e pedia mais emoção, o outro se abraçava às barras de ferro, contido para não demonstrar covardia, rezava por dentro para o castigo acabar. Em atenção às preces, o brinquedo não enguiçou no ar, como acontecera duas vezes antes, e depois de quinze minutos, os quais ele jurou ter durado bem mais, André nos convidou apressado às barraquinhas, vai que Lucas quisesse dar mais uma volta ou ir parar na terrível Monga.
As barraquinhas eram dispostas em sequência. Tinha cachorro-quente, milho verde, canjica, batidas, tiro ao alvo, algodão-doce, mágica e argolas. Fomos e voltamos umas duas vezes, até que eu comprei uma canjica, o Lucas uma batida de maracujá, a Sara um capetão e André, enjoado, não quis nada para não vomitar. Na falta de assunto, começamos a falar de música, enquanto víamos o show de longe, sem nenhum interesse. Eu percebi que, de um jeito muito discreto, Sara tentava se aproximar de Lucas, e ele, ao perceber o interesse do amigo por ela, se afastava. Até que inventamos uma desculpa e o deixamos a sós. André a beijou naquele dia, ele disse, mas não vimos e não acreditamos. Eu não voltei à festa no domingo, mas Lucas e André foram e encontraram Sara. Lucas me disse que em dado momento, outra vez, os deixou a sós, foi dar uma volta, e quando os reencontrou estavam de mãos dadas, vermelhos de vergonha, gaguejando, as mãos frias, um suplício. Na semana seguinte, André e Sara assumiram o namoro, ele mais do que ela, mas durou pouco, uns três meses, até Sara terminar. André ficou arrasado e só voltaria a falar de meninas um ano depois, tão ferido de misoginia. Lucas e Sara continuaram colegas até a formatura do ensino médio. Nunca treparam, é claro, embora devessem. Chance não faltou. O que faltou foi iniciativa de ambos, prevalecendo a vontade que tinham em disfarçar, o desejo tão bem reprimido que escandaliza o nada acontece. Hoje seria ridículo ressuscitar o que se entende que não era para acontecer. Ou era? Não importa. Destino pudico quero-o longe de mim, chicoteado. São lamentos de crianças que não tiveram coragem de dar vazão às vontades e por isso só lhes resta fantasiar. Fragmentos de veleidade algemados à gaiola de ferro da intimidade.
Fosse o prazer matéria pública — visível, audível, tátil — talvez pudesse ser metrificado. O caráter privativo e exclusivista da intimidade, todavia, impede as aferições. É de bom tom, sugiro, suspeitar do pendor da intimidade por experiências fabulosas, tantras que incitam a mente com sugestões de aventuras tresloucadas desde que praticadas sem testemunhas, ou seja, com vergonha. Neste universo mágico, há que se suspeitar que ocorram na frequência e na intensidade sugeridas. Na intimidade, tudo pode. Mas neste ‘tudo’, pode ser que não haja nada, ou que haja, mas nada além do trivial. A intimidade é pródiga em maquiar o pudor e em superestimar atos banais. Ninguém a vê. A fantasia que inspira o desejo pode não ser nada além do que ela promete, uma fantasia excitante e invisível, sem matéria. Funciona não como uma verve a potencializar a ação, mas como um pêndulo hipnótico a inebriar a mente num labirinto de vontades reprimidas e irrealizações.
O corpo é um tesouro e seus atos, uma sacralidade. Premedite e contenha-se. Inação é celibato. Desfrute nos filmes mentais o que não pôde realizar. Éramos jovens envergonhados até o cu, com os desejos mais pudicos reprimidos, dominados por uma total inação carnal. Um bando de assexuados que fingia internamente gostar do que queriam que imaginássemos que fosse uma delícia, guardando os genes premiados para a ocasião super especial. Talvez no fundo nenhum dos dois quisesse de verdade. Falso. Queriam, sim. Só não fizeram. Talvez ele quisesse um pouco mais. Por que desconfio que é sempre ela quem nunca quis de verdade?
Neste ínterim, eu e Lucas fomos escondidos no carro do André Bandido — o apelido do peão com fama de espevitado, moleque atrevido, de boa índole — à famosa casa da luz vermelha, na entrada do Bom Jesus. Lugar frequentado por marmanjos solitários e arrependidos, não por aprendizes como nós. O palco sem dançarinas. A música brega. Dois pedaços de torresmo às moscas na travessa do suplicante mamado. O segurança que não vê a hora de ir embora para casa. A verdade é que quis desistir no instante em que entrei. Por sorte, as profissionais, e uma em especial, com sotaque de fora, me mandou relaxar que ali não era lugar de sacrifício, não para quem paga. Mas não consegui. Fiquei tão tenso que pedi pelo amor de Deus para a senhora Tamires não contar nada a ninguém — com medo de que a frouxidão se espalhasse — no que ela sorriu, um sorriso amargo, quanta dor aquela mulher bruta escondia, e me agradeceu por tê-la dispensado do serviço, o que me deixou mais confuso, sentindo um misto de autovergonha e pena alheia. Meses depois, Lucas admitiu que também não fez nada. Não estávamos preparados para perder a castidade, embora quiséssemos muito, tanto queríamos que firmamos a promessa. É a pressão que o meio exerce sobre a masculinidade padronizada. Se não der certo lá fora, no parquinho, voltamos ali onde era garantido, mesmo que de verdade eu não quisesse voltar, disposto até a mentir que não havia ido. Por outro lado, já tinha passado da hora de virarmos homens. E homens precisam de malícia e safadeza, senão ficam ingênuos e virgens para sempre. A ingenuidade prolonga a virgindade. Sagacidade combina com safadeza e ingenuidade com pudismo. Besteiras de meninos querendo ser cabras vividos que não são e nem serão.
Eis que numa manhã de domingo sou surpreendido com a notícia de que dois jovens morreram num acidente de carro voltando da festa de Apiacá, mais uma tragédia na conta da cidade que a esta altura já se esquecera do suicídio de um garoto prodígio dois anos atrás. Mas agora não se tratava de tragédia inédita, ao contrário, acidentes de carro tinham se tornado rotina, carrascos da juventude do Bom Jesus. Quantas vidas se perderam naquela estrada? Dezenas. Quem eram? Filhos de fulano e ciclano, que falta fazem! E era sempre igual: garotos voltando de festas na madrugada, tragédia anunciada, vilão comum, o álcool. Dessa vez, todavia, a autópsia identificou que o motorista estava sóbrio, e os passageiros, embriagados. Chamava-se Hugo, o condutor, e tinha o apelido de Carniça, porque era pouco seletivo nas paqueras. Era dois anos mais velho e eu só o conhecia de vista. Sua fama percorrera a cidade com algum exagero, atribuindo-lhe caráter irreal, culpa da inconsequência. A segunda vítima eu conhecia bem, e foi por isso que minha mãe me deu a notícia. Alexandre Tebaldi, meu colega de sala, o gênio. Tinha falado com ele dois dias antes, e ele dissera que pretendia ir na festa em Apiacá, só não disse como. O carro, um Tempra azul-marinho, perdeu o controle numa curva e capotou. O cinto de segurança não o salvou, embora tenha salvo Carniça. Foi no seu velório, com todo o colégio presente, que me dei conta de que nem toda preocupação é exagerada e que realmente podia ter sido com qualquer um de nós, embora a minha sensação não fosse de alívio por não ter sido comigo, como ocorrera com meu irmão, mas de indignação por ver ir embora um colega de quem eu nem era tão próximo, mas que deveria, por Deus que deveria, ter vivido muito mais. Eu não soube como consolar os pais, os quais não vejo faz décadas, mas a notícia é de que eles seguiram a vida no mesmo lugar e, passado o luto, foram vistos como quem consegue o desgosto disfarçar. Vida que segue. O mundo desaba e se reconstrói. Não há ser amado que impeça os amantes de continuar. O que não se supera, carrega-se. Quanto ao único sobrevivente da tragédia, o que dizer? Há muito já não se pergunta o porquê da benção do corpo fechado. Sobreviver é uma bênção? Culpa da sorte. A realidade prova o contrário. As estatísticas mostram que há vários acidentes com um só sobrevivente. Neste foi o motorista, noutros foi o do lado ou o do meio. Talvez a física explique, uma física para cada acidente. Eu no meu. Ele no seu. Não somos exceções. Somam-se as várias exceções e pronto: tem-se mais um grupo com histórias em comum, mais um todo ordinário. Curiosa a persistência egocêntrica em identificar especiais em mistérios, todos eles, desvendados por Newton, Kepler, Galileu, Arquimedes e Aristóteles.
Em 1997, eu trabalhava na farmácia do Miguel, meu primeiro emprego. Limpava a poeira das prateleiras, lavava o banheiro dos fundos e colava a etiqueta de preço na caixa dos medicamentos, pelo o que recebia cinco reais por semana, dinheiro que o meu pai dava para o Miguel me pagar. “Foi para você aprender a valorizar o dinheiro suado”, o Velho me diria anos depois ao confessar a farsa. Eu via aquelas garotas mais velhas vestidas de branco manipulando os remédios num laboratório dentro da farmácia e disse a mim mesmo que eu poderia fazer o mesmo. Daí me meti a querer ser cientista no quarto dos fundos da casa e durante a semana que durou a ilusão fiz experimentos em tubos de ensaio, vestindo óculos e máscara descartáveis, já imaginando que um dia alguma fórmula seria batizada em meu nome. A minha mãe sabia que aquilo não iria dar em nada e tratou de cortar logo as minhas asas. “Primeiro você aprende a resolver equação de primeiro grau, e já passou da hora de ter aprendido, depois você pode mentir a si mesmo”.
Afinidades à parte, ninguém se desgostava na nossa sala, embora devo dizer que não éramos a turma mais unida. Quantas rusgas testemunhei? Algumas, não tantas. Discórdia? Rancor? Não me lembro. Havia a turma que competia por nota, uns oito ou nove, mas que nunca ganhava. Havia a turma que competia no esporte, uns doze ou treze. E havia uns poucos que fugiam de qualquer competição, como eu, Bruno e Lucas, de quem eu mais me aproximei. Hipertímido com estranhos, daqueles que preferem passar batido, levava um tempo para se soltar, mas não muito, porque não era desconfiado, e não temia novas amizades, embora não as implorasse, o que era um traço do seu orgulho latente, e mesmo conosco, os seus amigos, sempre foi o mais reservado, sempre preferiu ouvir a falar, apesar de às vezes irromper o silêncio com risadas estridentes, tão próprias que não deixavam dúvidas no escuro, mesmo quando era difícil entender a graça. E neste ponto, como em tantos outros, era a mãe encarnada.
O pai era uma figura. Doutor Roberto Agostinho, ortopedista de renome. Tinha ouvido tantas vezes aquele nome, quem não tinha, mas foi só quando finalmente o conheci, dois meses antes de o Gabriel se matar, num almoço de domingo na sua casa no qual Gabriel não compareceu, naquela casa linda, a mais linda que eu já havia pisado, que compreendi como pode um homem ter uma senhora pança. Destruiu sozinho metade do peru em oito minutos, e ali eu jurei, com uma ponta de inveja, que fosse faltar estômago. Mas não. O prato era uma montanha. Só de arroz e feijão serviam três, fora a farofa, em cuja travessa ele não deixou sobrar um farelo, catando-o com os dedos o que transbordava, e ainda mandou Fátima trazer outra, dessa vez sem passas. Quando a esposa sugeriu, com muita delicadeza para não constrangê-lo, que fosse mais devagar, não pecar pelo excesso, Agostinho deu um murro na mesa que derrubou meu copo de refrigerante e soltou uma gargalhada, levantando-se para pegar um pano. Era seu dia de folga, após três plantões seguidos aos domingos durante os quais foi pego preenchendo palavras-cruzadas no intervalo entre os atendimentos, ao que o doutor se escusava dizendo que precisa de instantes de paz mental para desempenhar melhor a função. De volta à mesa, por cortesia ao convidado, agarrou a última asa e me deixou a coxa. Ao vir que eu já estava satisfeito, não resistiu: cutucou-me, pediu licença e enfiou o garfo no meu prato. Depois lambeu os dedos, limpou a boca com a toalha de mesa, porque o guardanapo tinha acabado, palitou os dentes, disse que as regras de etiqueta são bobagens de famílias decadentes, coisa de gente fresca, e que sua profissão o levava a crer que saúde tem mais a ver com satisfação do que com dieta. Encheu nossos copos de Guaraná e sua tulipa de cerveja, dispensou a sobremesa e retirou as louças, cuja limpeza ficaria a seu encargo, mas para depois. “Bem, agora vamos jogar uma partidinha de buraco”, desafiou, soltando um arroto. “Melhor de cinco. Quem perder paga o carneiro domingo que vem”.
Lucas gostava de álgebra, era metido a alquimista, tinha suas taras místicas e estava começando a gostar de meninas, mesmo sem se empolgar, e eu, bem, eu detestava estudar, embora adorasse ir à escola, e não tinha nenhum interesse em meninas, só queria jogar bola. Eu e ele somos iguais. É que referir-se a si na terceira pessoa imparcializa o relato, creem os críticos, como se eu fosse desprovido de autocrítica. Quando o sinal tocou e foi aquele alvoroço, a professora falando e a gente de pé já de mochila nas costas, Cármen, nossa adorável professora de português, na maior paciência, disse que retomaria na próxima aula, assunto chato — análise sintática — que era para tentarmos fazer os exercícios das páginas cinquenta e nove a sessenta e um (“ufa, são só três”, pensei) e se despediu, acho até que foi a primeira a sair, sorte a nossa, porque, se fosse o Ferraz, ele teria mandado a gente voltar, sentar a bunda na carteira e assistir ao fim da explicação, levasse o tempo que fosse, nem que fosse preciso chamar o Roberval, o secretário, para assegurar a disciplina.
Mas fora essa e algumas outras coisas miúdas, não havia do que se queixar do Padre Mello. Aquilo era um paraíso de colégio, superliberal e menos exigente se comparado à escola federal, gratuita como a nossa, embora menos pública, já que selecionava seus alunos mediante um vestibular prematuro. A educação pública tem dessas anomalias — é universal no plano municipal, fraco em orçamento; e é seletiva no plano federal, concentrador de recursos. Na escola federal, o Instituto de Aplicação, nove em cada dez pais gostariam que seus filhos estudassem, certos de que a exigência contribui para o aprendizado. É a visão ascética e sádica segundo a qual a dor educa, atinente ao mote “sem dor, sem glória” que casa tão bem com o liberalismo estético das academias da maromba. Sorte a minha e de Lucas que nossos pais pensavam diferente. Sorte a minha em particular, porque, não sei se já externei, mas se tem algo nesta vida pelo qual nutro a maior ojeriza chama-se exigência, essa chaga calvinista que demoniza o prazer. Antihedonista, antifarrista, masoquista. Simplesmente abominável. Prefiro tudo, a perfídia, a pedofilia, o fratricídio, à ascese cristã. Desculpem-me se ataco a moral. Azar do André, meu segundo grande amigo, se não o melhor, cujos pais eram incríveis e jamais os esquecerei, mas cuja mãe, tia Vilma, não soltava um milímetro na rédea da criação. Eram devotos do evangelho reformado. Trabalho árduo dignifica o homem, weberianos do caralho.
Éramos todos vizinhos. Eu e Lucas morávamos na mesma rua. Nossas casas eram separadas por um terreno baldio cujo dono nunca procuramos saber quem era e onde invadimos tantas vezes para recuperar bolas isoladas e subir no pé de goiaba. Passávamos as tardes jogando bola até escurecer no quintal do André, na rua de trás. Eu acordava às seis e quinze da manhã, tomava café e batia na casa do Bruno. Íamos a pé para o Padre Mello e quase sempre víamos a pick-up da tia Vilma saindo da garagem, a mãe do André, que os levava, ele e seu irmão caçula, Victor, na mesma hora para o Colégio de Aplicação, na entrada da cidade. Éramos amigos de bairro, do bairro chamado Jardim Valéria, todo ele só de casas, algumas bem grandes, verdadeiras mansões, como a do Lucas, outras não tão imponentes, mas ainda assim, sem dúvida, um bairro de gente privilegiada, alguns diriam de gente rica, questão de referência, rico em relação a quem? Bairro de gente que mesmo numa cidade apagada, numa vila como a que nasci, seus moradores fazem questão de destoar.
André foi nosso colega de classe no Padre Mello da primeira série até o segundo ano do ensino médio. Tia Vilma já queria tirá-lo de lá por discordar do ambiente livre que eu e Lucas nos empenhávamos a construir no colégio, ao que hoje não me falta modéstia a nos gabar por termos erguido a verdadeira vanguarda da educação pode-tudo em todo o sul capixaba, uma mentira que gosto de contar. Para a tia Vilma, éramos, Lucas e Bruno, mas sobretudo o primeiro, más influências ao seus anjinhos. Por outro lado, tínhamos o dinheiro paterno a nosso favor. Tio Sobreira só queria saber de ganhar dinheiro; se os filhos vão estudar nessa escola ou naquela, foda-se, estudem onde quiser. Educação holística? Pedagogia Waldorf? Faça-me rir! Insistimos bastante para que Bruno permanecesse no Padre Mello, e o convencemos por duas vezes a ficar, já que a vontade da mãe era que ele saísse depois de concluído o fundamental. No terceiro ano, contudo, a vontade dela prevaleceu. Victor tinha migrado para o Colégio de Aplicação desde a sétima série, e no primeiro ano do ensino médio já sabia mais matemática que o irmão que estava prestes a se formar. A defasagem na comparação com o irmão caçula venceu todos os nossos argumentos. Eu continuo a defender a desordem educativa, o empirismo e a intuição, o tentativa e erro, o desprezo ao método engessado e às diretrizes padronizadas, e como é bom errar bastante sabendo que a cota de compreensão e perdão não se esgota. A vontade em propagar que agora o filho mais velho também tinha sido aprovado na escola federal era grande demais para resistir. E ela, Wilma, bancária e ginasta, filha da terra, não esperou nem a matrícula ser efetivada. Ligou para todas as amigas, pôs o nome do primogênito no altar da missa de agradecimento, direcionou a conversa no clube social de modo que o assunto fatalmente descambasse na educação familiar, e se não fosse o marido a impedi-la da humilhação, teria contratado o serviço do carro de som e dos outdoors espalhados pela cidade enaltecendo seus príncipes imaculados aprovados no Colégio de Aplicação, a porta de entrada para um futuro brilhante. Aquela mãe estava tão desesperada por sentir orgulho dos seus, que se tal vontade não fosse atendida de imediato, era capaz que se culpasse por não tê-los mimado mais, como se isso fosse possível. Tio Sobreira nem precisou ceder, porque para ele era indiferente. E foi assim que André nos pediu desculpa por abandonar o barco, dizendo-se contrariado, mas orgulhoso por ser o bom filho obediente à mamãe que certamente sabe o que é melhor para mim; personalidade amarrada, eu, filhinho da mamãe.
Mesmo com a sua saída, continuamos convivendo bastante, já que éramos vizinhos e Bom Jesus é uma roça. Mas nós perdemos o melhor convívio, naquele paraíso que se chama Padre Mello, ao qual Lucas e Bruno juramos lealdade infinita, mesmo que me jubilassem. Embora deteste olhar para trás, porque é melancólico, quando penso nos anos de vida desperdiçados na cidade natal, só o Padre Mello me consola, porque ali nunca permitimos, e disso eu e Lucas podemos nos orgulhar, nunca permitimos que a ética protestante e seu ascetismo masoquista ali adentrassem. A nefasta visão calvinista segundo a qual viver resume-se a nascer, trabalhar duro, produzir mais e morrer; viver com dor, sem nenhum desfrute, dormir pouco, alimentação leve, nenhum gasto supérfluo, trabalho escalpelado e morte com um legado, um legado a ser transmitido ad eternum às gerações vindouras, cada qual mais herdeira que a anterior e cada qual mais responsável por perpetuar o legado e o sobrenome, uma dinastia, um reinado, um morgado, tudo graças ao primeiro visionário, louvação eterna ao defunto criador original.
Está amarrado. Não vão contaminar nossas mentes. Não vão nos fazer abdicar do prazer. Contra o espírito reformista e feudal da existência humana declaramos guerra, defendendo até a morte que tudo, absolutamente tudo, amor, vida e família, precisa acabar, acabar para que haja um recomeço, um recomeço do zero — é imperativo que seja do zero. O fim é a morte. E a morte é o triunfo último do igualitarismo, quando todas as existências se nivelam no nada, no fim sem legado. E que tal o fim das distinções de classe, gênero, raça e nação? Vamos aniquilar as diferenças e petrificar a igualdade. Horror dos pluralistas identitários. Androginia, mestiçagem, redistribuição e internacionalismo absolutos, totalizantes. Terermos todos o mesmo sexo, igual estatura e peso, o mesmo rosto, cabelo, cor e maquiagem, os mesmos gostos, pensamentos e iniciativas, escreveremos com a mesma mão, nasceremos dos mesmos pais e os nossos filhos não serão só nossos, serão de todos, pois somos irmãos tal como eles hão de ser; frequentaremos os mesmos espaços, trocaremos os mesmos papeis, empregos e pares; viveremos em edifícios idênticos, em apartamentos de idêntica metragem, em bairros que são todos iguais, em cidades e países de mesmo nome, numa única comunidade, e assim despertaremos do sonhar-acordado para afirmar que somos iguais. Quer saber: este é o meu ideal, a minha utopia. Cada passo nessa ilusão mantém-me em movimento, empurra-me para frente. Por que não restauramos os primórdios da humanidade?
Com exceção das garotas que não queriam trepar, em todo o resto fizemos a folia vicejar, porque farra é o melhor antídoto contra o ascetismo do calvino. Padre Mello: patrimônio imaterial do Bom Jesus, bastião anticonservador, casa de jovens progressistas loucos para rasgar os limites que uma educação safada pode proporcionar, mas que para o azar de mais uma geração frustrada ficou tão somente na alucinação da libido enjaulada. Tudo culpa dela, da maldita castidade. Coitadas das garotas puras, reduzidas à máquinas ambulantes de satisfação carnal de macho insaciável, uma farsa. Não podem ver uma que já ficam excitados, doidos para enfiar, coisa maldita. Não, eu não existo para te satisfazer. Trate de se conter. Eu me contenho, mas tenho sido obrigado a me conter tanto que já não aguento mais, uma hora explodo. É desejo demais reprimido. Faz mal a existência, desumaniza. Assim nasce a misoginia. Assim nasce um pederasta. O remédio talvez seja não ter vontade. Fazer com que desapareça, assexualizar-me, talvez assim a angústia cesse e eu encontre paz. Como faço para aniquilar minhas vontades?
Apesar de André ter se mudado de escola, e talvez por isso, a distância nos aproximou. Fora da escola, agora convivia mais com ele do que com Bruno, cuja dedicação aos estudos aumentava à medida que a prova do Colégio Naval avizinhava. Recusava nossos convites de pelada, e pipas já não soltávamos mais. Por três ou quatro vezes fui a sua casa estudar, mas não suportei. Bruno era compenetrado demais. Foco total. Nem vontade de mijar sentia, entretido em cálculos cabulosos, nos valores de xis e nas determinantes, na geometria analítica e eu ainda não havia saído da plana, ao passo que minha mente me empurrava à distração, energia demais desfocada, tantos interesses simultâneos, tantos objetivos irrealizáveis, ligar a tevê, ler o jornal, comer bolinho de chuva da vó, brincar com o cão e sair correndo para longe daqui.
A casa do André tinha uma área externa imensa, com um gramado que servia de campo de futebol, com direito a trave num dos lados. A parte interna era semelhante a de uma casa qualquer, com cozinha e área de serviço anexas, duas salas — uma para assistir televisão e outra para jogar conversa fora — e um corredor estreito que levava tanto ao banheiro quanto aos dois quartos, o dos meninos e o dos seus pais. Nunca procurei saber qual era o primeiro nome do pai do André. Todos o chamavam pelo sobrenome, Sobreira. E todos diziam que o homem tinha bala na agulha, criava gado no Mato-Grosso e até avião tinha para se transportar. De fato, muitos quadros ali aludiam àquela vida rural aristocrática, dos barões do século passado, uma vida pintada em fazendas de não sei quantos alqueires, dessas que a gente ouve falar que cobrem áreas do tamanho do Sergipe e do Espírito Santo. Se a do tio Sobreira era uma dessas, eu nunca quis saber e não me importava, mas a impressão que ele deixava quando vinha ao Bom Jesus — o que era uma surpresa, afinal era um homem itinerante — não tinha nada a ver com a daqueles senhores do centro-oeste retratados nas novelas como donos de um terra sem lei, homens que não costumam ouvir nãos, que definem o destino dos filhos, sobretudo o das filhas, e que adoram ser obedecidos, mas que também sabem retribuir a obediência mandando abater um nelore para engordar a festa de fim de ano dos funcionários leais. Não, o tio Sobreira assim não era. Era um sujeito até acanhado, falava pouco, de cenho fechado, embora não fosse mal-humorado. Vestia trajes simples, chinelo de dedo, camisa regata e o chapéu de couro branco não dispensava. Fumava feito uma chaminé, um camelo atrás do outro, adorava o Flamengo e churrasco, e se algo no seu agir sobressaltava, eram o cordão de ouro para fora da camisa e as caminhonetes, dessas sim o bichão gostava, volta e meia trocava a antiga pelo modelo do ano e este já vinha com banco de couro e vidro blindado, mas nem por isso deixava de fumar dentro dela, um atrás do outro, enquanto íamos ao açougue comprar carne depois de ter feito a aposta na lotérica e cumprimentado velhos conhecidos que o admiravam pela riqueza e pela simplicidade, porque no Bom Jesus esta só é digna de nota quando sucedida daquela — simplicidade na riqueza é virtude; na pobreza, é conformismo ou falta de coragem.
De vez em quando André nos encontrava no terreno baldio com os nossos colegas de escola, embora preferisse que eu, Lucas e Bruno fôssemos a sua casa, cujo quintal da frente, como já dito, comportava meio-campo e tinha trave de um lado, onde podíamos jogar à vontade, apesar de que nunca era tão à vontade quanto no terreno baldio, já que na sua casa a bola podia bater em alguma janela e quebrar, para desespero da tia Vilma, hiperzelosa com tudo e com os seus. E André era competitivo ao extremo. Coisa irritante. Parecia ser profissional. Nunca era um lazer, uma descontração; era aquela obsessão em ganhar, ganhar e, no final das contas, o que estava em disputa? Era-lhe impossível levar a coisa só na brincadeira, jogar por diversão. Memorizava os placares e não nos deixava ir embora enquanto estivesse perdendo, prolongando as partidas até o seu gol da virada. Rejeitava empates. E vivia a relembrar as vitórias e os lances mágicos. Depois do jogo, tomávamos jarras e mais jarras de suco de maracujá e goiaba que a Vanuza, sua empregada, preparava. Ela não só preparava como nos servia na sala enquanto assistíamos Malhação, depois recolhia os copos e não aceitava ajuda para lavar. Deitado na poltrona em frente a tevê, Victor, o caçula, não a deixava em paz. Toda hora pedia um favor. Vanuza, faz pipoca; Vanuza, faz empada; Vanuza, corta a maçã; Vanuza, faz mais suco. Vanuza, liga o ventilador. Vanuza, faz brigadeiro. E ela, claro, atendia. Era a empregada. Às vezes excedia o horário, mas não se importava. Pegava a bicicleta barra-forte e ia embora, não sem antes alertar os irmãos de que dona Vilma já estava para chegar e por isso deveriam ir logo pro chuveiro. Tia Vilma chegava sempre com as mãos cheias de compras, sobre as quais Victor avançava à procura do seu danoninho. Cobria os meninos de beijos e perguntava eufórica quais eram as novidades; e enquanto eles tagarelavam, ela só concordava: “Ah, é”, e continuava ouvindo, dando trela, ouvindo e concordando. Nunca vi criatura tão afável. Aquela mulher morena, de sorrisos espontâneos e obcecada por ginástica — acordava às três e meia da madrugada para fazer esteira — realmente sabia agradar as visitas, como se fossem de casa. Em casa e no trabalho — bancária no Banestes — era atenta, diligente e de uma organização quase neurótica, procurando se inteirar feito uma repórter sobre onde, como e o porquê de todas as coisas, inclusive das desnecessárias. E é claro que uma mãe assim só podia ser muito presente, do tipo que pergunta tudo e desconfia do silêncio, mas que confiava em absoluto nos filhos, julgando-os incapazes de mentir e dando-lhes sempre razão por serem os seus filhos, os seus anjos imaculados, criaturas sagradas. Se nasceram de mim, então só podem ser perfeitos.
A despeito de toda hospitalidade, a chegada de tia Vilma nos fins de tarde era um sinal, para Lucas e Bruno, de que estava na hora de voltarmos para casa, a não ser que André insistisse para ficarmos para dormir, o que a gente torcia para acontecer e geralmente acontecia só às sextas-feiras, mas sempre na sua casa, porque tia Vilma não deixava os filhos dormirem fora. Daí eu e Bruno íamos em casa, deixávamos a roupa suja e pegávamos uma muda nova, camisa, shorts e a chuteira, porque todo sábado de manhã tinha pelada no campo da AABB. Avisávamos nossos pais e voltávamos correndo para a casa do André. E lá estava ele, aquela morsa, deitado no sofá já de banho tomado e de pijama do conto dos patos, dando ordens e resmungando. Comíamos cachorro-quente com coca-cola, jogávamos botão ou adedonha e depois assistíamos filmes de suspense antes de dormir. André e Victor dividiam o mesmo quarto, cada qual na sua cama de solteiro, separadas por um vão onde Bruno e eu estendíamos os colchonetes. Com o ventilador ligado e a luz apagada, os quatro ficávamos conversando até tarde sobre vários assuntos: futebol, escola, família, férias, carros, contos macabros e meninas santas. Desputávamos quem seria o último a dormir e nunca chegávamos a um consenso do vencedor. Depois a gente morria de rir das broncas da tia Vilma, vindas do quarto ao lado. “Xiiiii!”, grunhia brava. — “Vamos dormir, crianças. Já passou da hora! Amanhã vocês têm futebol”. E era essa toda a nossa preocupação com o futuro: o futebol de amanhã na AABB.
O Padre Mello era muito divertido. Não sei quando foi fundado (1966), mas já devia ter pelo menos quatro décadas de história. Sua fachada era branca e amarela. A deterioração não me incomodava nem um pouco; as rachaduras são sinais de que a estrutura foi bem utilizada no tempo, dinheiro público bem empregado. Havia muito espaço para brincar, tanto no gramado na entrada da escola, quanto nos fundos, onde ficava o escorregador, a quadra poliesportiva e uma capela por cujas janelas se avistava um terreno que servia de pasto para jegues. Uma vez o Lucas pulou nesse terreno, montou no jegue e deu duas voltas no lombo do bicho, mas devido a sua montaria débil, caiu e deslocou o braço esquerdo. Como a diretora da escola, dona Marta, era uma senhora muito liberal, apesar de cristã, decidiu aplicar sanção nenhuma, emitindo um memorando no qual dizia que brincadeiras daquele gênero eram muito normais entre jovens do cu riscado, eram saudáveis e até necessárias, e que a partir daquele momento, enquanto fosse diretora, o Padre Mello incentivaria o lazer lúdico ao ar livre, totalmente desregrado, bem como as montarias em jegues, jumentos e asnos, sem hora para começar nem acabar, proibidos os estilingues aos pardais. Apesar de nem todos terem entendido o teor do comunicado, o documento serviu como um marco de uma nova era na escola, a era em que advertências e punições não mais seriam vistas como métodos pedagógicos. E quando tia Fátima se inteirou sobre o tombo já no posto de saúde que pôs o braço do filho de volta no lugar, parabenizou-o pela liberdade de escolha, por ter ousado, e depois endossou cada palavra daquele memorando, fazendo campanha no ano seguinte pela recondução de dona Marta ao cargo de diretora, a mais visionária que a escola teria, mulher cuja fotografia há muito desapareceu do salão honorífico em tributo aqueles que fizeram a nossa história, neste corredor da fama cuja história universal é contada pelos mesmos rostos do passado.
O que falar dos professores? Não os chamávamos de mestre, coisa retrógrada, e creio que a maioria dispensaria o título. Dona Alda, de redação, coitada, os alunos procuravam evitá-la por conta do bafo, o qual só depois viemos a descobrir que advinha de dente putrefato. Ela tinha seus prediletos, como todos os têm, o que entre nós era motivo de quizomba. A professora de biologia, Cibele, tinha uma euforia que só podia esconder alguma dor, dedução particular. E a Cármen, de português, era a minha predileta por dois motivos. O primeiro, acho que já foi externado, era porque adotava um critério de avaliação generoso que levava em conta o esforço em sala de aula e não apenas os acertos na prova, com uma adorável tendência a fazer vista grossa para erros bobos e a inflar as notas de todo mundo, critério este que pode tê-la ajudado a cair no gosto da maioria da turma e sobretudo do meu, menos no de uns dois ou três competitivos que perdiam tardes estudando para se distinguirem no boletim e darem orgulho aos papais na reunião com o coordenador no final de cada bimestre.
“Parabéns, seu filhinho é um exemplo de aluno. Dedicado, estudioso, um amor. Está no caminho certo.”
Os pais, idiotas, acreditam, porque todo pai idiota acredita em palavras idiotas que atestem a virtude da educação-principado que se esforçam em prover. A essa altura, vocês já notaram meu ódio por pais babões. De fato, eu os odeio mesmo. Do fundo do peito. Um dia, se me tornar um, era tudo o que eu não seria: babão. Na minha tirania, seriam os segundos condenados ao paredão, depois dos fazendeiros. Todos os que tentam infantilizar o imperativo do tempo merecem o canhão. Devo-lhes desculpa mais uma vez por ter escapado do assunto central, mas creio que esses desvios compõem a história e são fruto de uma mente perturbada, essência desta trama. E peço desculpas pelos arroubos de fúria. Eles compõem a minha personalidade. Muito do que desejo não faria na prática. São apenas hipérboles irrefletidas, tara tirânica própria de quem só idealiza o poder, sem jamais desfrutá-lo.
Retomo agora, então, a adorável Cármen, a mulher que nos ensinou que o português é a melhor arma contra a ingenuidade. Por que a amávamos? Porque detestamos gente exigente. Ódio mesmo — de desejar o mal, de desejar não que morram, mas que sofram, para que no auge da dor penitenciem-se por não terem dado o melhor de si. “Ah, eu deveria ter me esforçado mais. Maldita preguiça. Maldita fraqueza”. E vão dormir com culpas na cabeça. Torço para que o exigente se penitencie com sua culpa até o fim da sua eternidade celestial.
O segundo motivo por que a adorava era porque a víamos se divertindo nos forrós das festas chatas e, crendice minha, eu a associava por isso a uma pessoa despojada, humilde, despida da autoridade professoral. Como éramos tolos. Forró, povo e simplicidade, tudo o que queria encaixar a nossa gente humilde do campo com a minha canhota minimalista. Como estávamos enganados. Como há caipiras elitistas, breguices que reforçam a distinção e um senso de igualdade e apelo às origens que, num dado limite auspicioso, casam tão bem com a misantropia.
Adorávamos as aulas de História do Ênio. Com ele viajamos à Idade do Bronze e aprendemos como os nômades, antes caçadores e coletores, com o advento da agricultura, fixaram-se na terra e formaram as primeiras civilizações, ignorando todos os hominídeos predecessores; civilizações as quais, cinco milênios antes de Cristo, ergueram as primeiras cidades na Mesopotâmia e nelas prosperaram graças ao comércio. Os sumérios nos deram a escrita; os egípcios, a arquitetura; os assírios, o exército; e os persas, a moeda. Para depois perceber que também nisso fomos enganados, que a Revolução Neolítica é superestimada e que as sociedades ágrafas já eram super avançadas, dominavam o território como nenhuma outra, mas, por não terem escrita, são indignas de serem chamadas de civilizadas. Evoluímos? Como era fascinante a Antiguidade; fascinante e brutal, com toda aquela sucessão de impérios e de homens geniais, quando o saber não era compartimentado, quando filosofia, matemática, astronomia e política se misturavam porque o ócio permitia pensar em tudo e trabalho era coisa de escravo; homens guiados pela ambição, pela fé, pela prata e pelo sangue. O quanto será que o mundo mudou desde então, será que involuímos e a paz é obra da nossa diplomacia? Vimos este grande Império, o persa, ser erguido por Ciro e destruído por Alexandre, os dois grandes. Aprendemos que a Grécia era um mundo e suas cidades-estado, nações. E eu mandei Platão e Aristóteles enfiarem o idealismo no rabo, principalmente depois que li a primeira linha de Nicolau. No norte da África, em Cartago, os fenícios, que nunca mais saíram da minha cabeça: imperadores do mar, dominavam o comércio de metais no Mediterrâneo até serem arrasados por outro império, o romano, e desde então todo o Ocidente chupa o pau de Júlio César.
Começamos a contestar a versão bíblica sobre a criação do universo, afinal muita coisa tinha acontecido naqueles milhares de anos antes de Cristo, na verdade milhões — pois nossa origem, nossa verdadeira origem, data da primeira leva de hominídeos a habitar a terra, não a sessenta mil anos, não ao homo sapiens, mas a sete milhões, ao australopithecus, ao Ardipithecus ramidus, à África do Plioceno. Aí está o primórdio da humanidade.
No entanto, os agraristas insistem em atrelar nossa história ao neolítico para enaltecer a agricultura. Dez mil anos não são nada. Absolutamente nada. Nossa origem data de milhões de anos, não de milhares, e é caçadora e coletora, não agrícola. Diz-se que os sumérios foram a primeira civilização humana. Por que não o homo-erectus? Por que não os australopithecus? Não se nega a importância do advento da escrita cuneiforme suméria, fruto de processo histórico, com precedentes, não brota do nada, não é um advento ex nihilo. Avanços tecnológicos, como a escrita, demarcam transições na cronologia histórica, são úteis e válidos como marcos temporais, mas eu nego que sirvam de critério para se atribuir a um dado agrupamento humano a lisonja da civilidade. Civilização existe desde a primeira leva de hominídeos a habitar a terra. Milhões de anos vão se passar, milhões de anos de vida humana na terra passarão até que a relação de comando e obediência institua o surgimento do Estado, criação moderna paralela às relações econômicas baseadas na troca. Troca como escambo, pré-capitalismo, para suprir necessidades e conveniências, é fenômeno antiquíssimo e próprio do viver humano em comunidades que não são autossuficientes. Troca capitalista, todavia, motivada pelo lucro, é algo recentíssimo na história. Dá mesmo para dizer que é uma invenção infante.
Queria recuar à Pangeia para reafirmar que houve um tempo em que todos os continentes eram um só e que as ideologias nascem da separação. Mandar os tradicionalistas à merda, eles que tanto amam seus antepassados medievais, recuando de propósito só até um ponto na linha do tempo, um ponto por eles arbitrado, que é inequivocamente a sua gloriosa e teocêntrica Idade Média. Por que não recuam mais, muito mais? Até os primórdios do homem na terra, até o tempo em que não existia propriedade privada e distinção, até o ancestral comum? Quanta história precede à Europa medieval? Em escala anual, quase toda a história. Afinal, seus tataravós sucederam tataravós, que por sua vez tiveram em ascendência os seus tataravós. Onde começa a linhagem? Quando exatamente os saqueadores se tornam nobres? É da nobreza que se orgulham, do morgadio, querem construir na terra um principado para os filhinhos. Pois eu irei destruí-lo. Seus filhos não serão reis, disso lhes asseguro, serão homens como eu e você, iguais perante a deusa República. A história não começa na Idade Média, é nela que retroage. Se é para recuar, por que não recuar à origem? Recue mais e chegaremos à ancestralidade comum da qual todos os humanos descendem. Se é para adorar o passado, não adorarei o passado de mil e quinhentos, a sua maldita colônia, a sua coroa, mas o passado de sete milhões de anos, sem reinos, sem reis, sem heróis, à vida sem propriedade; ou recuemos mais: à quatro vírgula seis bilhões de anos, quando a terra surgiu e nela não existia vida, só existia magma e antes disso não existia nada. A origem é o hadeano, são mutações moleculares e antes, o nada. Eu amo o nada. É a ele que pretendo retornar. Confio mais no meu nada do que no seu Deus.
A esses pontos indeterminados do passado remoto, quanto mais remoto, melhor, Lucas recorria nas avaliações, de preferência dissertativa, nas quais podia divagar, ir buscar nos sumérios e fenícios explicações para questões contemporâneas acerca do poder, do Estado e do livre-arbítrio. É como se duvidasse mesmo do ineditismo. Tudo já existiu em algum ponto atrás, basta continuar recuando até encontrar. E tudo o que virá terá um precedente. Mas não é esta uma posição conservadora? Dúvida indigesta, da qual se afasta com a noção expandida de múltiplas temporalidades e politempos. O presente não suplanta o passado numa só direção frontal. Eles se intercalam. Ao passado sempre se pode regressar, não para venerá-lo, como prega a tradição, senão para desmistificá-lo: destronar heróis e descobrir fantasmas.
Começam as contradições difíceis de sanar. Detestar o passado, mas não a primitividade. Provas de múltipla escolha eram uma tortura. Ficava preso às opções bê e cê, são idênticas, porra, e não conseguia avançar. Se avançasse, sua mente o ordenava a retornar. Questionava de imediato a decisão tão penosamente tomada, que ao cabo de duas horas de prova só havia respondido as três primeiras perguntas, rasuradas a ponto da folha furar, deixando as questões fáceis em branco por falta de tempo. Culpava o relógio por não ter conseguido elaborar, porque a objetividade não quer sua elaboração, quer te enganar por distração. Mesmo com toda a compreensão de um professor que detestava reprovar, não tinha jeito. Maldita múltipla escolha, dúbia, sintetizando asserções para questões complexas. Culpa, de novo, da merda que é ter escolhas demais. Fossem elas amassadas, desaparecer-se-iam as dúvidas.
É tempo longo demais para nos fazer pensar que nossa existência na terra é insignificante, quer dizer, quem éramos nós dentro dessa imensidão temporal, não éramos nada, e assim começamos a flertar com o niilismo bem antes de ouvirmos o termo pela primeira vez. A que o niilismo o remetia? Não, não me diga que a sua banda predileta? Ah, de foder. Falso. Ainda ouvia, é certo, Pink Floyd nas viagens longas a caminho de funerais e despedidas, e como agora Lucas adorava se despedir, ansiava mesmo pelo momento! Havia dois ou três dias que vasculhando o quarto do irmão encontrou o CD que Gabriel estava procurando um pouco antes de se matar, debaixo do criado-mudo. Apesar de a banda remetê-lo a memórias tristes, nunca considerou sugestiva àquela música de fundo enquanto a cena trágica se desenhava e que por instantes Lucas não a testemunhou. Viu o ato consumado, no entanto, tivesse chegado antes da execução, não teria sido capaz de impedir. Não, querido Lucas, você não tem esse poder dissuasivo. Você teria pulado em cima dele e retirado-lhe o revólver? Não. Você iria ficar paralizado, inerte, impassível, sem saber o que fazer, vendo seu irmão se matar decidido e calado na sua frente, sem mover um dedo. É o que teria acontecido, eu decreto, já que tu não consegues se libertar dos seus futuros do pretérito. Vá-te da minha mente, Mefistófeles, que tu só existes enquanto eu o concebo.
Sabia que a canção, Poles Apart, era uma mera coincidência. Sempre que a escuta, revive a cena; é o irmão aqui na sua frente. Nunca precisou se drogar para gostar de letras com significado e dizia que psicodelia não era uma fuga, mas um convite à reflexão, coisa infantil. E se pensar o deprime, bem, isso deve ser uma consequência lógica do exercício, um axioma: pensar entristece, pensar dói, dá mais prazer fugir e ignorar. Repetia isso para si para se sentir intelectualmente superior. Era esta mais uma de suas vaidades ocultas: parecer mais sábio do que era? Talvez fosse. À merda o pedantismo. O que sei é que foi mais ou menos nessa época em que Lucas não perdia a chance de afirmar que a vida não fazia sentido e que tudo era insignificante. Não perdia a chance de escrachar os deuses e destroçar a fé. Um niilista — adorava o termo. Ficava pensando se essas ideias também passavam pela cabeça do irmão e outra vez ficou sem respostas. Gabriel era um enigma. Estava morto. Talvez fosse melhor deixá-lo morrer em paz e não ficar rememorando-o, remoendo-o em tentativas vãs de ressuscitá-lo. Deixemos os mortos sossegados não para um dia a eles nos juntarmos; não haverá reencontros. Haverá fins e fins são definitivos. Aí está algo que me define: a finitude. Hei de tatuar na testa o símbolo do infinito despedaçado, maldito oito deitado. Encontrou, assim, um norte para sua ideologia nebulosa. Seja para que direção for, de uma coisa Lucas tinha certeza: era preciso haver um fim.
Quanto sangue não tinha sido derramado antes da crucificação e o quanto continuaria sendo depois? E por quê? Por ambição. Poder e ambição. Então a morte de Cristo foi em vão. Não infundiu a irmandade. Chegamos à Antiguidade e nos deslumbramos, veja que criancice, com a coragem dos espartanos, os homens mais brutos da terra e os quais detinham a preferência da ala masculina da turma no duelo contra as fadinhas democratas atenienses. Pois esta é a história que nos é contada, a história que cria antagonismos para se fazer interessante: força versus sabedoria, democracia versus tirania, fé versus razão, trevas versus iluminismo, campo versus cidade, agrarismo versus indústria, absolutismo versus anarquia, feudalismo versus capitalismo, indivíduo versus coletivo, heróis versus esquecidos, um Napoleão para mil exércitos de cadáveres, liberdade versus igualdade, fraternidade ou individualismo, nobreza versus burguesia, aristocracia versus república, e todos, clero, nobreza, monarquia e burguesia versus o proletariado, cujas vidas entregues à ilusão de 1848 nós jamais esqueceremos e cujos algozes nem todas as preces do mundo os redimem. Tudo isso antes do pós-modernismo quebrar as dicotomias e colocar os dilemas numa perspectiva de rede. De repente, nunca fomos modernos e os pares opostos não são nada além de pontos em um todo interligado. A compartimentação do conhecimento é um advento da modernidade. Na Grécia Antiga, filósofos eram matemáticos, astrônomos e naturalistas. Podiam dedicar a vida ao pensar, uma vez que trabalhar era coisa de escravos (hilotas). Mas essa modernidade precisa de adeptos para se manter viva. Quando os homens deixarem de ver a vida social sob o prisma binário, então a modernidade ruirá.
Ascensão e queda do Império Romano preencheram um semestre inteiro, interminável, período em que nos martelaram o quanto as leis romanas influenciaram as nossas. Queria eu tivéssemos dedicado a mesma atenção aos outros impérios — o persa, o egípcio, o mongol, o turco, o etíope e o songai — mas a metodologia vem de cima e é preciso agradar os descendentes de italianos que por algum motivo torpe acham que suas famílias têm algo a ver com aquela Roma que um dia foi grande, Roma que precede — e muito — a Itália. Até hoje me espanto com a obsessão em querer encontrar no passado um familiar nobre, por que não um rei assassino ou um súdito covarde? Aí veio o Feudalismo e não pudemos deixar de notar algumas semelhanças desse sistema servil e rural com a nossa realidade, a maior delas: a mentalidade agrária. Expusemos essa impressão ao Ênio, ao que ele de imediato rebateu: “Ah, jovens, tão idealistas…”. Seria inútil e inventivo demais tentar transcrever aqui a sua refutação, mas, em linhas gerais, ele explicou que os tempos eram outros, que tinham surgido nações com territórios demarcados e com elas as identidades nacionais e a matança em nome de uma bandeira que era muito mais do rei do que do reino, que a Revolução Industrial inglesa trouxe o camponês sem terra para a cidade e nas fábricas a divisão do trabalho aumentava a produtividade. Este fenômeno, tão estrito à Inglaterra e confundido como universal, significava agora uma nova era de luz em que a razão e o tecnicismo imperariam sobre as trevas feudais, libertando levas de camponeses da corveia, da servidão e da ignorância, depois de serem desterrados pelos cercamentos e pela gentrificação. Veja como o capitalismo industrial liberta! Nascia ali, revolucionário, o capitalismo que nós saudamos por ter ajudado a derrubar o feudalismo e com ele tudo o que mais deplorávamos: reis, nobreza, feudos, estamentos e títulos nobiliárquicos. Mas como o mundo era reduzido à Europa, a Europa à Inglaterra e a Inglaterra à Manchester, de cujas fuligens saltamos alguns séculos para o mundo globalizado, cooperativo e competitivo, sabe-se lá como tal antagonismo opera, mas que desse antagonismo disfuncional brota a essência do capitalismo moderno. Éramos sortudos por termos nascido num mundo nunca tão pacífico, depois de milênios de guerras infindáveis, dos sete, dos trinta, dos oitenta e dos cem anos, isso só para ficar na Europa, e que, apesar destas ainda acontecerem em vários cantos do mundo, muito mais do que conhecemos, porque o mundo não é tão pequeno como a tecnologia aduz, tínhamos então mais um motivo para levantar as mãos aos céus, porque aqui, em que pese os nossos conflitos passados, os nossos cabanos e balaios, as conjurações e insurreições, os escravos, o contestado, o cangaço e as ditaduras, apesar da nossa história aristocrática e sangrenta, pelo menos agora, nos últimos anos do século XX, ao contrário do Oriente Médio, agora e aqui na América do Sul a diplomacia triunfava, aqui ninguém nos diria que não há alternativa à guerra ou nos mandaria ao campo de batalha no qual teríamos que escolher entre matar ou morrer, porque neste caso, se não matássemos, nos matariam. São tão dramáticas essas narrativas bélicas, sempre atrás de heróis improváveis, e elas continuam a ser contadas em tons de horror para fazerem jus às memórias de quem foi e nunca mais voltou como era. Veja o tamanho da nossa sorte, verdadeira benção, por jamais termos que fazer tal escolha, depois de séculos e milênios em que o mundo foi regido por essa norma deturpada do darwinismo: matar ou morrer. Felizmente tínhamos evoluído, um termo que soava tão presunçoso, mas que nos faltava estofo para refutá-lo. Temos a bênção de viver numa era gloriosa de paz e abundância material. Hoje os sem-teto vivem melhor que os imperadores romanos, os refugiados que a nobreza feudal e os 50 milhões de desempregados que o segundo Dom Pedro, o visionário que teve cada suspiro mitificado pela historiografia áulica e cuja modesta realeza o faria trocar seu palácio por um barraco com tevê e seu cetro por um smartphone com dois gigas de memória.
Tínhamos evoluído como sociedade, pelo menos desde a derrota do nazifascismo. Ué, mas a modernidade não havia prometido enterrar o despotismo? Em vez disso, deu-nos duas guerras cujas proporções sem ela, a modernidade, não teriam sido mundiais. Não conhecemos a guerra, é fato, mas tantas outras mazelas nos circundam que, sem querer compará-las à guerra, no mínimo poderíamos desejar que a evolução acelerasse. Guerras e mazelas não são, afinal, coisas tão distintas — ambas advêm da incompreensão humana. Foi quando eu e Lucas, inspirados por Otto Gross e pelo Manifesto Dada, criamos um grêmio anárquico no Padre Mello, com o aval da direção, com a condição de que o patrimônio público não fosse depredado, algo que fugia às nossas intenções, apesar de que os jovens, e isso é válido ressaltar, como fração do público que são, devem poder utilizar o patrimônio público como bem aprouver, inclusive depredá-lo. A depredação parte de uma manifestação enérgica legítima, contra a qual os budas da paz de espírito se insurgem porque sua seita é pregar que ninguém se exalte e que a mente forte tudo suporta num nirvana sepulcral. Budas que não pulsam. No entanto, nós não comungamos dessa seita. Budas pacifistas que não agem, não pulsam, não vervem. Uma vida de autocontrole: vida artificial, domesticada pela inteligência artificial, sobre a qual se assenta o império do comedimento. Centrado e moderado, domesticado, inerte, desnaturado. Como se pode atravessar uma vida sem perder as estribeiras trinta vezes sequer? Como se pode almejar não perdê-las, inumanos? Exaltar-se faz bem. Libera energia reprimida que, se não fosse liberada, poderia ser utilizada para coisa bem pior do que quebrar uma vidraça, como, por exemplo, estrangular o papa. O que é público tem dono — é de todos — e cada um que compõe o todo pode e deve usufruir da sua fração que integra o público. Estou farto de velhos amargurados que não souberam aproveitar a juventude e agora na velhice só o que lhes resta é sugar a juventude dos que pulsam em verve. Os moralistas pedem que nós, os jovens, abdiquemos do nosso usufruto do público para preservá-lo a outras fatias do público que no mais das vezes dele não usufruem. Acham que o público é intocável, digno de um zelo e de um não-me-toque de porcelana, quando eu digo que o público é para ser consumido sem dó nem piedade por todos. O público é para ser gasto e arregaçado; se for, é sinal de que foi bem utilizado. Se os outros não o querem, eu o quero, eu o demando e irei consumi-lo como parte do público que sou. Convidamos o André para se juntar ao grêmio, embora ele já estivesse na escola federal. Ele foi em duas reuniões, brigamos por causa de uma proposta sórdida e depois disso nos separamos. Ele agora só queria saber de estudar e garantir seu futuro, fugindo feito o diabo da cruz de qualquer pauta política. E, como você há de convir, o sujeito não tem nada de anárquico. Não pela condição social — porque rico eu e ele somos. Mas a riqueza não é homogênea. Nela, a influência familiar nos separa: enquanto ele quer viver do que os pais são, eu não vejo a hora de me desgarrar.
O nosso ideal, como bons anarquistas, era contestar toda e qualquer autoridade, o status quo, essa aberração tradicionalista, e, sobretudo, a classe burguesa opressora, traidora dos ideais da revolução tricolor, estes egoístas filhos d’uma puta, os nossos pais, gananciosos feito Patinhas, o pato, e responsáveis pelo maior mal do universo, que se não era a guerra, é a miséria. Com dezessete anos tínhamos uma certeza que levaríamos para a vida: a gente se depara com a pobreza todos os dias e escolhemos ignorá-la por conveniência. O que posso fazer se o Tião não tem feijão em casa e se os filhos dele serão tão fodidos como ele? Ora, a solução para este mal é simples e radical, do contrário é conversa fiada. Basta aguardar a morte natural dos ricos, deserdar os filhinhos parasitários e repartir os patrimônios com a coletividade. Expropriar os expropriadores. Onde estão meus irmãos revolucionários? Por que os pobres não se revoltam? Por que não tocam o terror? Por que não assassinam seus patrões escravocratas? Por que todos os dias, em todas as manhãs, massas obedientes vão à labuta sacrificarem-se ao capital? E não fazem nada. Nem revolta nem greve. Ao contrário: impedem. Trabalham feito servas a quem as explora e ainda repelem as tentativas de mudança.
Radicalismos, todavia, não levam a nada, dizem os reformistas moderados. Só nos fazem perder apoio. Os ricos são criaturas sensíveis, feito fadas brandas e cor-de-rosa. É preciso medir as palavras com eles, e jogar o jogo deles se o objetivo for promover o bem-estar social. Tem-se que tributá-los de um modo quase imperceptível, uma tributação leve e intergeracional, para que os herdeiros dos muito ricos de hoje sejam um pouco menos ricos amanhã, e que os herdeiros destes sejam depois um pouco menos ricos do que seus pais foram, e assim sucessivamente até um dia conseguirmos aproximar os ricos das pessoas comuns. Um dia que, neste sistema, jamais chegará. Se a mordida for feroz demais, eles berram e sonegam, transferem fortunas para o exterior, criam fundos exclusivos, driblam o fisco com a ajuda dos melhores advogados e toda a sociedade perde com a fuga massiva de capital. Ricos são como bebês. Você tem que cobri-los de amor e carinho, porque se eles se apavoram, e eles se apavoram facilmente, ficam melindrados, expurgam a sociedade justa que irá tributá-los com vigor e passam por meio de suas poderosas redes de comunicação a convencer a classe média recalcada que o nosso nobre ideal é só mais um tipo mascarado de despotismo socialista, ou seja, que nós somos os filhos de sangue do capeta.
Em nome dos ideais apoiamos todas as greves que pipocavam na cidade, fossem elas dos professores, dos agentes comunitários, dos frentistas, dos garis e dos sem-terra, porque todos éramos vítimas do sistema capitalista opressor contra o qual tínhamos que nos unir em prol de uma sociedade mais justa. Uma sociedade que não parecia, no Bom Jesus, importar-se com as reivindicações grevistas. Ao contrário: eram os mais humildes os propensos a recriminá-las, porque atrapalhavam seus deslocamentos e porque não visualizavam nada além de baderna, e para quê, se o barulho não ia mudar o que não podiam mudar, vem de nascença. Santo conformismo, aliado opressor. Assim, de modo a conscientizar esses trabalhadores explorados acerca da vital importância da luta de classes, antes que o nosso pedido fosse indeferido pela Câmara Municipal, decidimos partir para a desobediência civil, e saímos depredando semáforos, placas de trânsito e letreiros dos postos de gasolina, porque, repito, o semáforo e as placas de trânsito são minhas também, já que componho o público, e no final do dia descobrimos a ineficiência desses atos, porque os trabalhadores não deixaram de ser explorados e jamais deixarão de ser, e descobrimos também a truculência policial, raspando o cabelo dos que seguiam a moda do metal e distribuindo tapas na cara, ações que, confesso, em nada me decepcionaram, eu que cresci com uma imagem tão deturpada sobre a polícia, heróis que arriscam suas vidas para proteger a comunidade, tão heróis que um dia até me fizeram querer ser um, mas que agora se revelavam sob um novo prisma: na verdade, eram, para minha surpresa e decepção, fascistas a serviço do capital, como todos os fascistas um dia foram, e convenhamos, de heróica a polícia tem muito pouco, para não dizer o oposto, que era o que me dava vontade de dizer — bandidos fardados, covardes filhos da puta, bandidos e covardes filhos da puta a serviço do capital. Milícia desgraçada. Bem posso me ver um dia explodindo a porra de um quartel e assumindo a autoria num vídeo de cinco minutos veiculado no Jornal Nacional no qual hei de prometer novos ataques se a truculência não cessar e se não libertarem os presos sem condenação. Sim, adoraria ter sido um bandido respeitado em todo o território nacional. Cabra mau e marcado para morrer, sim, mas não sem antes matar duas dezenas de porcos fardados. Vocês não vão me pegar, sou mais esperto. Ainda sonho com isso acordado. Estou criando coragem para me juntar ao crime organizado. Matar policiais pode ser o meu mais novo ideal. Quantas chacinas cometidas por policiais nos últimos anos? Quantos inquéritos encerrados? Quantas denúncias? Quantas condenações? E, então, Ministério Público, vai arregar para policial até quando? Do conflito se valem para justificar a barbárie. É o necropoder. Eles decidem quem pode viver e morrer. Em meio ao tiroteio, não há freios a farda. Recebidos com bala e bomba — é sempre o mesmo o pretexto — o revide tudo pode, pode sentar o dedo a esmo e ver o que acontece, depois o cenário acoberta.
Na semana seguinte, fizemos circular pelo colégio um memorando do qual só hoje nos damos conta de como éramos ingênuos. Intitulamos o documento de manifesto pela paz na Palestina. E num só parágrafo resumimos nossa esperança pueril:
Pedimos só um pouco de boa vontade e compreensão. Leiam o documento. Vocês verão que ali não há ódio ou revanchismo. Os nossos interesses são opostos, mas não façamos disso uma guerra. Já é hora da trégua. Não existem vencedores e vencidos. Toda a humanidade perde com esse conflito. Eu não tenho a pretensão de que a paz apagará as mágoas e diferenças. Mas será que não podemos abaixar as armas e, mesmo em lados opostos, convivermos, senão em harmonia, ao menos sem agressão? É tudo o que peço. Nem que para isso tenhamos de tolerar o inimigo. Se a união dos povos parece um ideal distante, senão impossível, vamos ao menos parar de nos matar. Não penso em flores ou aperto de mão. Por ora, recolher os tanques já seria a vitória possível.
Leio agora o memorando e pergunto à geometria do poder quantas vidas palestinas equivalem a uma baixa israelense?
Pregávamos para multidões invisíveis. Vendo que nenhuma das nossas ideias tinham impacto e aderência, não há nada mais difícil do que mobilizar as massas, é a maior e mais difícil tarefa socialista e a razão pela qual, a desunião, ele não avança, decidimos então mudar as pautas ou ao menos suavizá-las. Lucas passou a pregar publicamente uma teoria jamais cogitada por aquelas bandas, algo tão ousado e escandaloso que é claro que ninguém o levou a sério. Bem, pode-se dizer que ele bolou uma teoria para solucionar, se não todos, ao menos uma caralhada dos males da humanidade. Esta humanidade sobre a qual se confundia com opiniões antagônicas. Ora otimista, crendo que se ela não se autodestruiu é prova de que o experimento humano deu certo, os homens sobreviveram graças à cooperação. Ora pessimista, crendo que a humanidade está se autodestruindo, apenas leva tempo para o trabalho ser consumado. A teoria consistia pura e simplesmente num tratado internacional por meio do qual os povos do mundo, como nas Olimpíadas, uniriam-se para celebrar uma total renúncia à ambição. Sim, a ambição era o grande mal do universo. Se conseguíssemos frear nossos desejos, repugná-los, espancá-los, reduzi-los à insignificância, haveria mais espaço para todo mundo conseguir satisfazer suas míseras e imprescindíveis necessidades. Seria mais fácil porque elas seriam simples e frugais — nenhuma grandiosidade. A grandiosidade deveria ser condenada. Veja bem: como nasce a competição? Nasce do interesse mútuo de muitos por algo que só uns poucos podem obter. A solução óbvia então é fazer com que os muitos dissipem tal interesse, esmaguem-no. É preciso fazer com que as pessoas cessem de querer as mesmas coisas e passem a querer cada qual uma coisa distinta. Como? Repetindo a si mesmo um milhão de vezes, até se convencerem, e eu me convenci, que aquilo que almejam é vil e desnecessário. Há que detestar o dinheiro. Há que abominar a vitória. É horrível ganhar mais que o necessário, causa maior de culpa. A maior vitória é derrotar a ambição e infundir um nível de desapego avassalador sobre a terra. Nenhuma excelência é digna de riqueza, essa coisa medonha que não deveria existir. O que sobra no meu bolso, falta no prato dos outros. Dinheiro só serve para pagar conta — pensão sobretudo. Coisa boa mesmo, de encher os olhos, é a feijoada, que se obtém com pouco ou na base da boa convivência, moeda fluida. Portanto, se conseguirmos fazer com que as pessoas não queiram as mesmas coisas, elas não precisarão competir, ninguém perderá e venceremos a frustração. E, sim, é possível manipular desejos. Faremos a propaganda inversa da publicidade. Martelaremos na cabeça das pessoas que elas precisam de muito pouco ou quase nada para viver, que é burrice querer tudo e se obrigar a trabalhar para alcançar, que tão logo você abra mão das suas vontades, você se dá mais tempo, todo o tempo que seria empregado para atingir antigos objetivos, massacrando os rivais, agora você está livre da obrigação de atingi-los, está livre da prisão do querer e pode usar todo esse tempo livre para fazer o bem, ser mais caridoso e nunca mais vender o seu esforço para conseguir o que agora você sabe muito bem que nunca quis de verdade. Está vendo: basta não querer. Não queira e você está livre. Não é mais um servo das vontades que te impõem. Espanque tais vontades, reprima-as a ferro e fogo e você nunca mais voltará a ser um escravo.
Outra bandeira do nosso grêmio, acho que a principal, era o repúdio à instituição familiar, o que se podia notar nas matérias do jornalzinho acadêmico que criamos, “A Comuna”, cujo capa estampava a deusa República desnuda, com as tetas ensaguentadas para fora, segurando, numa mão, a bandeira tricolor e, na outra, uma coroa sobre a cabeça degolada. Nosso lema era: toda família é um feudo, há que desmantelá-la — morte ao estamento! E saíamos pregando uma emancipação radical, instando nossos colegas a saírem logo de casa e a abrirem mão de seus privilégios familiares. “Vai gozar com o pau do papai até quando? Tenha vergonha de ser mantido por eles, seus fracassados. Herança é demérito. Saia de casa e assuma sua vida, covarde”.
Considerávamos a família o bastião do conservadorismo, mais até do que a igreja, e, acima disso, entendíamos que a família se valia de uma espécie de amor impositivo para estender privilégios com base na descendência, no morgado, uma verdadeira dinastia feudal, sendo ela própria, a família, a mãe das injustiças brasileiras. Éramos ensinados a amar nossos pais só porque eram nossos pais, e considerávamos essa razão frouxa. Eu queria amar quem eu quisesse e por isso considerava a amizade um amor mais livre do que o familiar. Ninguém iria me impor que eu tinha que amar alguém só por ter me botado no mundo. Eu não iria assumir o compromisso de amar quem quer que fosse por consanguinidade, na verdade estava mesmo disposto a odiá-los, até porque a minha visão de amor não tinha nada a ver com compromissos, mas com igualdade. E foi assim que saí dizendo, orgulhoso e prepotente, cheio de ingratidão, que amava mais meus amigos do que a meus pais, o que jurei a mim mesmo que era verdade.
No Bom Jesus, como noutras cidades pequenas, a pobreza era mais latente, embora tão real. Basta ver quem sofria mais com as enchentes. Mas ali pelo menos não víamos, como no Rio de Janeiro, toda aquela gente dormindo na rua, mulheres atiradas nas calçadas imundas pedindo pelo amor de Deus um centavo para comprar o leite dos filhos; no Bom Jesus a gente não via zumbis vagando pelas ruas, crianças de sete anos fazendo malabares no semáforo e todas aquelas moradias precárias onde não chegava água encanada, nem muito menos o esgoto tratado. No Bom Jesus em que vivíamos, havia rico e pobre. Éramos os ricos, veja a hipocrisia. Mas os pobres não eram tão pobres, ou eram, sim, mas não tão miseráveis. Ou era nisso que acreditávamos. Não pobres como aquelas pessoas que eu e Lucas vimos na primeira vez que fomos ao Rio e voltamos de lá indignados. Tinha que ter alguma explicação para aquilo. Por que tanta gente na merda? Por que tanta desigualdade e indiferença? Quer dizer, víamos na tevê as notícias do semi-árido nordestino, aquela seca desgraçada, as casas de pau a pique, gente sofrida e com esperança, a fome, ainda havia fome no nosso país, não era uma chaga vencida, mas eram imagens que eu só via pela tevê, distantes, bem distantes da minha realidade. Já no Rio, não, toda aquela gente estava ali na minha frente, implorando por ajuda e eu não podia fazer nada, nós não podíamos fazer nada, ou podíamos e não queríamos, sempre se pode fazer algo e falta iniciativa, e isso é revoltante, é revoltante ter que dar as costas, a sensação de impotência, que vira uma normalidade, cenas brutas do dia a dia, com as quais ou nos acostumamos ou fazemos algo para mudar, mas aí é preciso ter muito cuidado, porque mudanças assustam, quantas delas prometeram consertar o mundo e descambaram em genocídios, então é preciso cautela com as mudanças, quanta cautela eu não sei, porque cautela demais enrijece e acovarda, mas também não dá pra sair atropelando o que já foi testado e deu certo, mas deu certo pra quem? Bem, não são respostas para agora, e certamente nem eu nem Lucas as tínhamos quando retornamos daquela viagem convencidos de que a única responsável por aquela desgraça toda era a maldita burguesia opressora e as nossas famílias que dela faziam parte.
Além do grêmio, eu e Lucas criamos uma banda de rock que não durou um semestre. Eu tocava bateria, e ele, baixo. Felipe e Hugo, colegas de sala, completaram a banda, que se chamava Os Filhos de Quenga. Ensaiávamos no sótão do Lucas. Ele escrevia algumas letras, poucas na verdade, e as demais músicas a gente roubava das nossas bandas favoritas: Led Zeppelin, Rush, The Who e Pink Floyd. O negócio nunca passou de mera descontração, pretexto para jogarmos conversa fora. O Hugo era muito desafinado, eu também, e nunca encontramos outro vocal. Não sei bem quando a banda acabou. Acho que foi acabando aos poucos, sem que alguém tenha decretado seu fim, a medida em que um sempre faltava aos ensaios. O que mais recordo da banda foi o contexto por trás do seu nome, uma homenagem a quem devotamos nossa libido reprimida e ao mesmo tempo uma provocação à pureza feminina que grassava ao nosso redor. Infelizmente, não vivemos para ver a ousadia de uma mulher mais velha arrasar a nossa virgindade, embora tenhamos sonhado muito com isso, no que para mim se tornou uma grande frustração. Só Deus sabe o quanto essa mulher idealizada esgotou minha cota de despudor.
Hoje não tenho vergonha alguma em admitir que sou um homem absolutamente frustrado em termos sexuais. Isso porque sempre me faltou companhia para satisfazer as vontades. É uma vida inteira passando vontade, querendo e não conseguindo, tendo então que pagar para ter. Poderíamos ter desejado paixões inquietas, mas nos contentaríamos com uma boa safadeza, uma safadeza efêmera e gostosa. Nem isso tivemos, por puro pudor. É uma pena que meninos inocentes tenham seus desejos reprimidos por falta de veneno feminino. A culpa é delas que não gostam como nós, não querem conosco, e como sou obrigado a lidar com a rejeição, lido da minha maneira, culpando-as por não querer. Por muito tempo contive meus pensamentos com medo de não parecer um potencial estuprador, quando na verdade eu era só um garoto ávido por saciar minha imaginação, um garoto frustrado por não encontrar alguém com as mesmas intenções. Eu queria crer numa mulher audaz que me ensinasse os segredos a provocar a curiosidade que tinha começado a despertar. Queria tanto aprender aquelas malícias gostosas, mas para todo lugar que olhava, na escola, nas excursões, nas gincanas e na festa de aniversário da cidade, eu estava afundado num mar de castidade. Estava convencido de que as homilias de um padre antigo do Bom Jesus tinham crivado tão fundo os costumes locais que só mesmo uma deusa estrangeira para vir nos livrar do umbral do ascetismo puritano. Infelizmente, porém, a deusa só existia na minha imaginação. A realidade era um tapa na cara; antes fosse um sossega-leão. Escutávamos histórias que sabíamos falsas, de meninas que para se sentirem mulher diziam terem feito o que não fizeram, com o fito de nos instigar, autoprojetando ousadias às quais, confrontadas a demonstrar, encolhiam. Instigavam e corriam; corriam porque não realizavam — o pudor as impedia, e não só comigo, com qualquer um. Seja lá o que tenham feito, não fizeram. Podem achar que fizeram, podem se autoenganar, mas não fizeram. E todos nós, castos e assexuados, somos culpados pelo ressurgimento das trevas, o mundo pudico em que vivíamos. Um pudor que nos condenava à eterna masturbação. Todos éramos culpados por reprimir desejos, mas as culpadas maiores eram, sem dúvida, as meninas puras, aquelas que nunca ousaram sequer afrouxar o cinto da castidade, um furinho que fosse, não só para nos satisfazer como interessados que éramos, mas para se satisfazerem, afinal deviam também ter desejos humanos, então por que não os consumavam? Eu queria consumá-los. O Lucas também. O Bruno igual. Todo protótipo de macho queria. E não realizamos. Por que? Por causa do maldito pudor feminino. Por pudor. Por castidade. Por calvinismo. São as trevas. Dominadas pela visão ignóbil de que xota é prêmio a ser guardado a sete chaves e entregue ao homem ideal no momento oportuno, e só a ele, ao bom, ao honesto, ao íntegro, ao digno, ao honrado; essa visão que arbitra a quem elas devem se entregar, não por prazer, mas por respeito e piedade. É por isso que o homem de bem, o conservador, detesta a malandragem e tenta criminalizá-la. Por inveja. Porque o malandro realiza as suas punhetas. Fode com os seus sonhos e desaparecem, enquanto o honrado e o honesto imploram por uma chance, dignos de pena. Não, querida, deixe-me te explicar. Acho que não me expressei bem. Eu me relaciono com pessoas más. Não quero conhecer alguém legal, que levante o meu astral e me faça enxergar a vida com outros olhos, olhos mais bondosos. Não. Só quero alguém que compartilhe do desejo carnal e instantâneo de arrancar a roupa e foder com força. Pode ser uma pessoa perversa, de má índole, desonesta, um assassino. É tirar a roupa e foder. Só isso. Topa? Não. Ninguém topa. Nessa cidade estávamos condenados à virgindade. Que lugar terrível para ter desejos safados. E é assim que nasce a misoginia. Das frustrações, dos desejos reprimidos. Pense você, cabra safado, ter que se conter todos os dias para não dar vazão a sua animalidade, quando o que você mais queria era provar um pouco do veneno, este que vem sempre disfarçado. Ódio aquelas que nos trazem insatisfação, que nos forçam a sermos contidos, que nos impõem um celibato involuntário. Nenhuma delas está no nosso corpo para dizer o que não podemos sentir. Para elas é fácil, estão sentadas no trono da comodidade — não ofertam, escolhem — eu também queria escolher. Se ao menos não existissem, não teria razão para me sentir tão rejeitado. É assim que irrealizações vertem-se em rancor àquelas que te frustram. Que paradoxo desejá-las com fúria e fel e detestá-las por não compartilharem das mesmas taras — não comigo, não com ninguém. Melhor que não seja com alguém para não nos sentirmos ainda mais rejeitados. Patriarcado abjeto. Que seja demolido pela misandria afeita às mesmas sujeições. Irmã contida. A misoginia é fácil de identificar. A misandria se camufla — e tem, após séculos de domínio do irmão — arbítrio maior para se legitimar.
As meninas puras nos contavam histórias tão inverossímeis, cujas versões careciam do mais banal fundamento, que eu não podia deixar de olhar para aquelas criaturas e julgá-las tão meigas quanto suas mães tinham sido, porque nesse Bom Jesus retrógrado, as meninas dos anos 90 ainda se sentiam compelidas a seguir o exemplo materno das nobres damas. Uma roça. E sempre que tentavam quebrar esse estereótipo, soltando versos falsos, já logo imaginava que o faziam só para reforçar aquelas histórias inverídicas, histórias que as faziam se sentir donas de si e das suas escolhas, e todas as vezes em que pus a minha imaginação à prova, só descobri que não seriam aquelas meninas meigas a quebrar meu preconceito, as mulheres que me ajudariam nesse processo, as verdadeiras mulheres, essas eu ainda teria que aguardar um bom tempo para conhecê-las, e mesmo elas não me fizeram crer que as outras eram menos meigas, dóceis e castas, e eu confesso que eu tinha tanta raiva daquela docilidade, que a raiva com certeza aprofundou meu preconceito, um preconceito do qual até hoje não me livrei. Foi assim que vivi meus tempos de ódio às fêmeas puras. Tempos de ódio, é verdade, e não me congratulo. Não. Aquelas meninas dos anos 90 eram mesmo dóceis e castas. Tão dóceis, castas e puras que contra esse puritanismo passei, de propósito, a endeusar as putas, exemplos de mulheres de verdade, em nome das quais eu, Lucas, Hugo e Felipe decidimos homenageá-las com o nome da nossa banda frustrada. Putas eram mulheres de verdade. Só as putas eram. Eu as idolatrava tanto, mesmo sem conhecê-las, que um dia cheguei em casa e perguntei a minha mãe por que ela não se tornava uma, e neste mesmo dia eu jurei que se um dia eu tivesse uma filha, eu iria instigá-la a ser puta, puta mesmo, puta de verdade, puta mulher, porque mulher de verdade tinha que ser puta. As putas eram meu escudo contra a carência e com elas em mente eu podia sonhar ser o que não era e dar asas a todas as minhas frustrações.
Em maio de 1997, mais uma moda invadiu o Bom Jesus e instou o brio dos homens bravos. De repente começou a chover matrículas nas academias, todo mundo querendo aprender a lutar Jiu-Jitsu como os irmãos Gracie. Eu não fui um deles, o que até me afastou ainda mais do André, que tinha deixado a bola de lado e agora toda hora estava no tatame. Começou na faixa branca, como todos, e começou a sonhar que um dia chegaria na preta, para finalmente poder se considerar um lutador. Lucas também se matriculou, por insistência da mãe, que via alguma utilidade nesse negócio de defesa pessoal. Uma hora o filho iria para a cidade, e as cidades, como os adultos do Bom Jesus sabem, são violentas e impessoais, cada um por si, um mundo de cão, e neste mundo pode ser útil saber brigar ou correr.
Mas ele nunca gostou da coisa. Ia obrigado, porque a mãe já tinha pago o semestre e porque ela dizia que na vida é preciso persistir, que a gente até pode abandonar um plano, não há mal algum nisso, mas não sem antes insistir um pouco, porque às vezes o gosto leva tempo para manifestar, não é sempre imediato, você pode começar a aprender guitarra hoje, detestar, e daqui a dois anos estar tocando bem, porque em algum momento da trajetória você tomou gosto pela coisa, e citou o próprio caso para reforçar o argumento, de quando odiava inglês no começo, era péssima e nada entrava na sua cabeça, e depois acabou até ministrando algumas aulas particulares. O fato é que no mês seguinte começaram a colar cartazes nos postes anunciando o primeiro campeonato juvenil da modalidade, a ser disputado em praça pública, numa arena improvisada em meio aos festejos juninos, dividindo espaço com barraquinhas de canjica e milho verde, com a pescaria, o arremesso de argolas, o tiro nas caixas de fósforo, a boca do palhaço e com o carrinho do pipoqueiro Jorge, que tinha inovado e agora também vendia algodão-doce. O torneio seria disputado ao longo de três dias, os dois primeiros classificatórios, e no terceiro, as finais. Contrariando as projeções, Lucas chegara à semifinal no peso frango, depois de vencer sua primeira luta por W.O e a segunda por desistência do oponente, acometido por uma diarréia súbita minutos antes do gongo soar. Seu rival seria o nosso melhor amigo André, que vencera suas duas lutas no segundo assalto com uma chave de braço sob os aplausos dos pais. Era um sábado. Amanheceu garoando e por isso os organizadores chegaram a suspender o evento, para a alegria de Lucas que não queria lutar com ninguém. Mas depois estiou e a luta foi confirmada. Eles subiram no tatame, ouviram as regras cabisbaixos, cumprimentaram-se e cada um foi para o seu canto ouvir incentivos do treinador nessas horas em que o que você mais gostaria era estar longe dali. “Poucas vezes me senti tão idiota”, confessou Lucas no ano passado sobre aquela luta. “Foi difícil me conter para não rir na cara do meu treinador. Acho que nunca concordei em absoluto com ninguém, mas, por outro lado, também acho que nunca julguei tão bizarras todas as palavras ditas por alguém. Minha experiência com lutas serviu para confirmar aquilo no qual sempre desconfiei: se muitos homens são bestas, e com certeza são, os brutos são ainda mais bestiais. São bestas ao quadrado: porque se acham fortes e porque se orgulham do que não são”. Na plateia, Victor desferia socos no ar como se fosse ele no tatame, mesmo ciente de que o duelo ali não era boxe.
Os dois primeiros assaltos, André venceu com folga, trazendo o adversário pro chão e fechando a guarda, sua posição de conforto. Mais de uma vez o árbitro foi vaiado ao interromper a luta e pedir para os lutadores ajeitarem o quimono, alegando que a intervenção se fazia necessária por questão de moralidade, devido as bundas à mostra, em desagravo às senhoras de meia-idade que viam a cena e meneavam a cabeça. No começo do terceiro e último assalto, André agarrou uma das pernas de Lucas e o derrubou, golpe conhecido como “a baiana”. Aí montou em cima, com os joelhos e os pés no chão. Lucas ficou sufocado, vermelho, depois roxo. A luta estava ganha. No entanto, apesar dos acenos do seu técnico para ficar naquela posição e gastar o tempo, André empolgou-se com os gritos da torcida e foi tentar uma finalização, no que se desequilibrou, sofreu a invertida, o que os lutadores chamam de “raspagem”, pergunte a eles por quê, e com uma chave de perna, foi forçado a bater. O árbitro chamou os competidores e ergueu o braço do Lucas. Eles se cumprimentaram e saíram do tatame aplaudidos.
Enquanto se hidratava, ofegante, Lucas foi cercado por admiradores repentinos, acho que nunca mais se sentiu tão aclamado, ainda que tão idiota quanto antes da luta. Olhou ao redor à procura da mãe e não a encontrou. Guardou a parte de cima do kimono na mochila, calçou sua lambreta de sacerdote, espirrou o desodorante no sovaco e vestiu uma blusa amassada do The Doors. Tirou do fecho menor da mochila umas moedas que deviam dar para comprar uma bola de sorvete de flocos. Agradeceu os cumprimentos e se despediu em direção à sorveteria, no que olhou para trás e viu André sentado na arquibancada desolado, chorando nos ombros da mãe, enquanto a outra semifinal se desenrolava na arena improvisada. Aproximou-se, mas antes que pudesse dizer alguma coisa, foi contido por Victor, que disse: “Outra hora você fala com ele, é melhor”. Estava abraçado a Vilma, aos prantos. Neste instante, Lucas se dirige ao árbitro, um senhor de nareba achatada, orelhas finas e olhos sanguinários, com pupilas dilatadas, como as de alguém que acabou de cheirar uma fileira no camarim; fungava e estava ali para ganhar seus trinta merréis. Lucas o interpelou, segurando-o pelo braço. O senhor levou um susto com a espontaneidade.
“Seu árbitro”, chamou-o esbravejando, “não teria como o senhor declarar empate?”, perguntou Lucas meio sem jeito.
O árbitro ficou sem reação, olhando com pena para aquele rostinho tão delicado.
“É que eu nem gosto de vencer”, continuou Lucas. — “Eu me sinto ridículo toda vez que dizem que sou um vencedor. As vitórias são fúteis e eu me esforço para não ser também. Prefiro empatar. É muito mais democrático. Assim ninguém sai triste. Só o público idiota sai decepcionado. Mas eu não estou nem aí para o público. Quero que se foda. Posso na maior boa vontade decepcionar o público para não machucar um amigo?”
No final daquela tarde, quando voltou para casa e tia Fátima lhe perguntou como tinha sido a luta, ele não respondeu nada e se trancou no quarto. Preocupada, ela foi ter com ele, mas a conversa foi curta e unilateral. Lucas disse que detestava jiu-jitsu, que não era um lutador e que nunca mais queria competir contra um amigo, não importava qual disputa fosse, e maldito fosse quem tentasse convencê-lo do contrário. “A verdade, mãe”, prosseguiu, “é que eu gosto de ficar só com os meus pensamentos. Eu busco solidão. Sou um antissocial e não o digo sem dissabor. Mas, quando estou com os outros, e com a senhora também, não vejo a hora de me distanciar. Desculpe, mas é a verdade. Eu sou assim. Não queira me integrar na escola, porque meus amigos escolho eu — e sou seletivo. Eu sei que você quer me ver bem porque sou seu filho. Mas eu dispenso. Não acredito em felicidade e a senhora também não. A diferença foi que eu descobri que ela não existe com quinze anos (na verdade, foi com dezesseis) e a senhora talvez um pouco mais tarde, para meu engano”.
Assim o vencedor da segunda semifinal da tarde foi também decretado o campeão do torneio, já que o árbitro não acatou o pedido do outro vencedor, e, embora não façamos ideia de quem seja, ele pode se orgulhar de ser o primeiro e único campeão no peso frango do Bom Jesus, honra sem igual, porque nunca houve uma segunda edição para a decepção do público entediado sem opções de lazer na cidade morta e do árbitro que perdeu seu bico de final de semana e agora precisa se sujeitar à clandestinidade das rinhas de galo.
Lucas gostava de escrever. Não só letras tolas para a banda, como contos curtos, de não mais que sete páginas e três personagens, conselhos para iniciantes do seu herói literário, Tolstói, cujos hábitos ele começava a imitar, dizendo ter se convertido ao anarquismo laico, pregando a paz a qualquer custo, negando o conceito de guerra justa e até mudando seus hábitos alimentares, se não de todo vegetariano, como o ídolo, bem menos carnívoro, substituindo a vaca pelo peixe e levando palmitos e abacaxis à grelha nos assados de sábado a tarde. Das idas ao puteiro também se abstinha, ao contrário do russo infiel. Eu sempre pedia para ler seus contos, e ele me mostrava, mas só os que não reputava ridículos. Um deles gostei bastante. Não vou lembrar dos detalhes, mas era uma sátira à paixão futebolística. Um torcedor fanático que recebe a visita de um parente distante e tem que lhe dar atenção no dia da final do campeonato. O torcedor tenta convencer o homem a passear na rua, a conversar mais tarde, mas não teve jeito: o sujeito ficou no seu pé, puxando todo tipo de assunto, menos futebol, impedindo-o de assistir ao jogo em paz, azucrinando-o de propósito. No fim, depois de ter perdido o jogo e ficar puto com a derrota do seu time, o anfitrião enxota o parente para fora de casa e no dia seguinte descobre que o sujeito era seu tio, irmão do pai que nunca conheceu. Um bom conto: conciso, sóbrio, sem exageros, indo direto ao ponto, sem rodeios e firulas. Do ponto de vista literário, embora Lucas empregasse termos rebuscados e desnecessários só para florear o texto, termos que poderiam ser facilmente substituídos por outros mais comuns e ordinários, porque o comum é excelente, deve-se sempre buscá-lo, sua escrita era boa, com tiradas pertinentes, outras não muito originais, mas sem as extravagâncias usuais de quem acha que começou a escrever um clássico que ninguém o lerá. Escrevia sem muitos adjetivos, mas com alguns, os necessários para colorir suas cenas, sempre lineares, intercalando orações longas e curtas, essas mais vigorosas e conclusivas, e preferindo o discurso na voz ativa. Nunca comprou a tese jornalística de que textos sóbrios devem evitar ao extremo o uso de adjetivos para que os substantivos prevaleçam, porque acreditava que das duas uma: autores não são obrigados a serem imparciais e bons adjetivos, se bem usados, deixam o texto mais saboroso. Fugia da tentação de criar personagens por meio dos quais se exprime as próprias angústias, dizendo que isso não é literatura, mas egocentrismo, e que nenhum autor é mais interessante que a sua obra, porque a realidade costuma ser mais chata que a ficção. Seu objetivo era um dia escrever um livro sem amor. Mas ainda lhe custaria muita prática para se aprofundar no gênio dos seus personagens, para aprender que eles são pessoas e não objetos de estimação; e que como pessoas que são, personagens são impuros, eles mentem, são lascivos, gananciosos, invejosos e, sobretudo, são ingratos; ocupam-se da vida alheia e culpam os outros por suas falhas. As pessoas são feias, e os personagens também devem ser, imaginava, admitindo dificuldade em resistir às suposições precipitadas nas narrativas. Demorou pouco para aprender que os melhores personagens não são heróis, mas gente comum com quem se tromba por acaso e por quem se passa despercebido na rua, pessoas que de tão ordinárias ainda mantêm algum traço de originalidade que já não mais se vê nos grandes feitos para o aplauso.
Tampouco enrolava para chegar ao cerne do que queria dizer, o que para a nossa professora de literatura e português, a maravilhosa Cármen, era algo louvável. “Melhor sucinto que exagerado”, ela dizia — e reforçava: “a prolixidade é para quem sabe cadenciar. Se você não sabe, se não tem muito a dizer, diga logo o que te incomoda e acabe de uma vez com o suplício. No fundo, o leitor sabe quando o autor está só gastando tinta e não costuma gostar”. Uma vez, Lucas escreveu uma redação em primeira pessoa que mais parecia uma confissão, ou uma nota depressiva no diário, narrando o seu drama para escrever. Era um amontoado de ideias desconexas que ele submeteu mesmo assim à avaliação, depois de refazer quatro vezes sem nenhuma prova de que a versão final tivesse ficado menos ruim do que os rascunhos rasgados.
“Escrever dói. É uma tortura” — iniciava o relato. “Só Deus sabe o quanto sofro para deixar o texto fluido e claro. Nem tanto pelo pavor da página em branco, acho que deste mal nunca sofri, mas pelo turbilhão de pensamentos embaralhados. O diabo é organizá-los. Escrevê-los, apagá-los, reescrevê-los de outra forma, mais concisa, menos espalhafatosa e mesmo assim insatisfatória, e apagar de novo, tentar de outro jeito, apaga, insiste e apaga, nunca se dá por satisfeito. Tantas ideias e poucas linhas no papel, nenhuma das quais a contento, sempre com a sensação punitiva de que há algo a acrescentar, assumindo o risco de uma palavra distorcida, com medo da crítica que irá, é inevitável, massacrar, tendo-me por frívolo e frágil; riscando os adjetivos que soam falsos e exagerados, dá no mesmo, somado ao pior dos medos, o de parecer melodramático demais e acreditando que o melhor remédio contra tal falha é ser tão frio quanto desumano. Ah, como eu gostaria de desfrutar do processo! De que as mãos obedecessem a mente e de que esta funcionasse sem arreios, censurando a ideia anterior. Mas não. Escrever é penoso, machuca, é um autoflagelo. Quanto mais se persiste, maior o drama. Mas é uma dor vital, no sentido estrito do termo, porque é preciso sofrê-la para depois se sentir compensado, por mais sádico que isso soe e seja. É uma agonia. Só quem passa horas a sós com seus demônios sabe como é, ou pelo menos é como quero crer que se sentem numa angústia partilhada, reconfortante, pois, saber que a dor alheia consola a nossa, que não somos os únicos a sofrer. Então, que me desculpem pelo desabafo: é que há tanta gente no mundo que ninguém pode ousar se considerar único. Tudo o que me incomoda certamente incomoda a centenas e milhares de outras pessoas, anônimos com os quais não hei de ter a chance de trocar dramas semelhantes. O que me cabe é vomitar neste papel as minhas cóleras e expor as confissões que eu faço aos meus demônios, os demônios que te desafiam quando você senta a bunda na cadeira e se depara com uma página em branco que só você acha que tem a obrigação de preencher, e ainda se julga capaz de preenchê-la com palavras tortas, na esperança vã de que algum dia serão lidas e processadas, e o quão pretensioso eu seria se desejasse que alguém se identificasse com elas, muito pretensioso, certamente, mas rejeito tal identificação. O que eu quero mesmo é que essas palavras se percam no torvelinho do tempo e que de agora até a eternidade o anonimato me abençoe contra a carência e a vaidade, que no fundo são a mesma coisa, essa coisa que nos perturba a fazer algo útil a cada grão que cai da ampulheta, correspondente a cada dia em que a vida se esvai; com tanta força que mal nos damos conta de quantas vezes repetimos ser inútil remoer o tempo perdido e as falhas sem volta.
Aqui há uma lacuna, na qual matutou por dias e tardes atrás de palavras a preencher. Na ausência delas, valeu-se de uma estratégia medíocre. Fez-se uma interrupção abrupta na narrativa, deixando um hiato em aberto para livre interpretação. Um parágrafo em branco. Retomou a narrativa com reticências, supondo que os leitores chegaram àquela altura do texto cientes do que ficara para trás. À merda os leitores que querem tudo mastigado. À merda os autores que bajulam leitores para serem lidos.
… penso que quem tem necessidade de escrever, por prazer ou dor, escreverá com ou sem leitor. Vejo e respeito que muitos escritores inseguros queiram guardar seus trabalhos para si, por receio de se exporem às críticas. Acreditam que não são bons o suficiente; quem pode duvidar de que estão certos? É legítimo que queiram se resguardar desse atestado de mediocridade. Não querem ouvir dos outros a confirmação do que já sabem, o que é absolutamente compreensível. Afinal, se a dúvida da capacidade permanecer no ar, talvez reste uma motivação para tentar mais uma vez. E de uma coisa tenho absoluta certeza: grandes obras literárias jamais encontraram seu público. Obras-primas anônimas. Foram escritas para ninguém ler. Tenho certeza de que repousam em alguma gaveta, em algum arquivo morto, em algum lixão, se é que não foram queimadas. Qual a finalidade disso? Muito simples. É o total desprendimento do autor. Sua vontade imperial de não agradar ninguém, ninguém além de sua consciência persecutória; aplacar sua angústia e expurgar seus demônios. Só mesmo os livreiros ingênuos acreditam que todo aspirante almeja o reconhecimento. Não, não almejam. Se são mesmo escritores, hão de escrever até para público nenhum.
Na conclusão, que não parecerá uma, dá uma pirueta no texto e adota um tom de autor aclamado, como se já fosse um, vislumbrando-se no centro da Roda Viva para falar sobre o seu novo lançamento. Era o que queria ser no íntimo? Admirado e reconhecido? Certamente não veio aqui papagaiar o que autores consagrados já disseram. Queria ser melhor que todos dizendo o contrário, que jamais seria, por não levar tanto jeito para coisa e por ser naturalmente pior. Mais de uma vez se viu concedendo entrevistas sobre um livro que nem tinha começado a escrever e agora se perguntava se algum dia teria força para começá-lo ou se viveria a adiar projetos e depois trocá-los por outros para confirmar sua tese de que o projeto original era frágil demais para merecer seu esforço e ainda se vangloriar por ter a capacidade de cambiar de ideia, qualidade de quem não insiste em coisas infundadas. Será que estou atrás da minha consagração, devo esconder a vaidade? Talvez devesse me colocar no meu lugar, estou começando agora, com humildade. Humildade terei ao rejeitar a tentação em deter a verdade. Todas as ideias que cada ser pensante formula são atacáveis, essa é a regra, e eu a aceito. O que não aceito é um lugar diminuto onde, sob pretexto de humildade, seja inibido a pensar por conta própria e incentivado a repetir o que os outros pensam. Mas como daí ficaria a coerência com suas ojerizas à fama, ao sucesso, às glórias advindas com o sucesso? Estava atrás do sucesso que sempre desprezou? Ou nunca o desprezou a não ser da boca para fora? Eis a conclusão inconclusa, turbulenta, claudicante e que somente um escritor fracassado anos mais tarde foi capaz de prover.
Querendo ser todo mundo, não era ninguém. Ou melhor, era sim: era quem não queria ser. Um frustrado, um iludido, um perdedor. Poderia ter sido muito mais se… e se… e se… e se… e com essas condicionais é duro admitir que não teria sido mesmo. Foram tantas intenções perdidas… uma vida de sonhos impossíveis, de fuga da realidade, de existência passiva, ídolos forjados e amanhãs adiados. E da mesma forma que duvidava de quando acordava de madrugada e ia para a escrivaninha escrever se escrevia de fato ou só preenchia páginas ao léu, tentando dar um fim ao seu livro sem amor, também já não sabia se estava vivendo ou deixando o tempo passar. Felicidade não almejava. Nunca acreditara nela. E se ela fosse possível, é provável que a desprezasse para assim se certificar de que pelo menos essa ilusão não nutriu e depois se regozijar por não ter sido enganado. Com trinta anos já era um garoto cheio de remorsos, pelos quais poderia se julgar crescido. Se pudesse, começaria tudo de novo e faria tudo diferente, e de preferência, voltaria com a cabeça de outra pessoa, alguém melhor do que ele, qualquer um. Com trinta anos já sabia que a vida não tem sentido e que, mesmo se tivesse, tentar encontrá-lo é esforço em vão. Que vergonha sentia de fazer parte da geração mais pusilânime que nesta terra habitou. Seus ídolos mortos fizeram revoluções e mudaram o curso da humanidade. E que desgraça que era perceber que toda aquela inveja que por eles sentia não era forte o bastante para se transformar em ação. Invejosos são fracos. E ele se via liderando massas invisíveis, rostos perdidos em meio a homens brutos e desiludidos à espera de um líder, ele, querendo tanto ser admirado. Nenhum homem hoje nutre a indignação que alimenta a coragem revolucionária. Estamos todos conformados com o rumo estático do mundo, a história da estagnação, que se repete, vive a se repetir com rimas e impostores. E quantas vidas no passado foram sacrificadas em nome dos mais nobres ideais, pois não o foram em vão! Padeceram anônimos, mas derrubaram o absolutismo, aboliram o feudalismo, livraram as bruxas da fogueira, universalizaram os direitos do cidadão, guilhotinaram tiranos e agora sou eu quem digo que foram heróis. Pelo que fizeram, sim, existiram. E por que tenho que conter minha revolta? Por que não me rebelo contra os reinados contemporâneos? Ora, só pode ser porque faço parte da pusilanimidade, da frouxidão. Surjam os líderes e os seguirei. Já não acredito no diálogo. Isso é arma de burguês para frear ímpeto revolucionário. A transformação verdadeira cobra um empenho monumental de quem nela acredita — e eu acredito. Estou disposto a sacrificar minha vida para derrubar meus inimigos. E não acredito que haja outro meio para meu objetivo além da violência, essa obra fenomenal da natureza humana que, na falha das demais, tem a sua maneira própria para resolver conflitos, a primeira que o homem inventou. Quantos avanços foram conquistados no pau? Os maiores. Venho aqui perante a vocês destruir de uma vez por todas a moral. Declaro meu ódio às instituições sociais. À família, ao casamento, ao batismo e à propriedade filial. Que meus futuros filhos me ouçam e saibam que não sou o seu dono e isso implica que de agora em diante mais do que devem me desobedecer, ultimo-os a fazê-lo. Mas estão deserdados. Não são minha continuação, minha posteridade. A minha vida é uma só e os que tentarem puxar meu sobrenome eu os execro dinásticos, príncipes hereditários e consanguíneos, e desde já rasgo o meu sobrenome para nunca mais ser chamado por outro nome que não seja o meu primeiro, único e mortal. No Brasil, todavia, paraíso dinástico, os filhos são herdeiros necessários. É o cúmulo do paternalismo. É a instauração do principado, da primogenitura, do filhotismo sagrado. É a força da lei dizendo que os filhos valem mais que os pais, etarismo que mima e angelicaliza humanos com base na pouca idade. E por quê, eu pergunto, se filhos também se tornam adultos? Nada me leva a crer que dois adultos, um de 40 e outro de 70, pelo simples fato de serem pai e filho prediz que o de 40 mereça ter mais direitos legais que o de 70. O adulto de 40 anos, no afã de obter patrimônio, não deveria incumbir o ônus ao pai de legar-lhe tal patrimônio; na sua ambição, deve ele próprio ir atrás da sua riqueza. O pai tem todo o direito de se manter frugal consigo mesmo e com todo o resto, inclusive com o próprio filho. Na Inglaterra, berço da tradição, pais podem deserdar os filhos no testamento sem motivo de força maior, simplesmente por preferirem, por exemplo, transferir patrimônio a terceiros não consanguíneos. É o que deveria ser instituído onde quer que não haja um estamento feudal ou uma adoração obtusa aos laços familiares. Da forma como funciona o direito de família no Brasil, filhos são um verdadeiro fardo aos pais. Pelo fato de tê-los posto no mundo, a lei amarra os genitores a uma obrigação pecuniária filial que não me espanta que descenda daí o alto grau de infantilização cravado no âmago dos brasileiros adultos bem-sucedidos. Após uma vida sendo mimados, mimados serão para todo e sempre. E os pais, tendo cumprido com seu dever de procriar, já podem morrer, pois para o Estado os filhos é que são reis, dando continuidade a um tipo de existência patética segundo a qual tudo é sucessório, nada nunca termina, já que pais e filhos não são seres cada qual completos e independentes na sua personalidade, não são; são uma linha eterna e nobiliárquica indivisível, uma verdadeira dinastia familiar. Quando lembro do meu pai morto, posso vê-lo montado num cavalo com uma armadura de ferro indo lutar guerras que o idiota do rei travou e das quais meu pai não voltará vivo. Morrerá acreditando que sua morte não foi em vão, que é o que fazem crer a todos cuja vida é dispensável. E o rei esperará de mim o mesmo gesto de valentia quando me condecorar com um brasão e o meu sobrenome nele talhado, brasão ao qual terei toda honra e toda glória em devolver-lhe no dia em que espetar a lâmina da espada republicana na sua glote.
O direito de família brasileiro obriga os pais a amarem seus filhos mais do que a qualquer outra pessoa. E se alguém preferir amar mais a um estranho? Quão presunçosos foram os legisladores ao almejarem tratar de matéria sentimental partindo do pressuposto que a família é a instituição mais sagrada na terra. Institui-se um tipo de amor compulsório entre pais e filhos. Ora, não há maus pais e maus filhos? Pela nossa lei, os pais são tolhidos de preferirem alguém de fora do círculo familiar, e os filhos de amarem outros adultos que não sejam seus pais. No instante em que um pai tem um filho, ele, o pai, está obrigado a amar este ser que pôs no mundo mais do que qualquer outro ser do universo até o fim do seu existir. Se este amor fosse natural, sem uma lei para obrigá-lo, em nada me oporia. Mas eu me oponho à presunção legal de que filhos são criaturas imaculadas que gozam da plenitude da perfeição e por isso não permitem aos pais amar ninguém além. Existem filhos maus oriundos de ótimos pais. Nenhum filho me convence a merecer um título de salvaguarda contra as intempéries e dificuldades às quais todas as porções da humanidade, independentemente da idade, estão sujeitas a enfrentar só pelo simples fato de serem filhos-anjos de alguém. Filhos, sejam eles de quem for, não são anjos nem deuses. Na verdade, alguns são tão maus que o melhor para o mundo seria que não tivessem nascido. Muitas vilezas podem ser observadas ainda na infância. Não é preciso que cresçam para se mostrarem vis, já o são com menos de uma década de vida. Elejo então como ideal combater o que penso ser dois males da nossa sociedade: o excesso de proteção parental e a mitificação da infância como um período sacrossanto da vida.
É ilógico sugerir, por exemplo, que o orgulho parental guarde relação com a proximidade do elo. É plausível supor, ao contrário, que muitos netos tiveram grandes avós e péssimos pais. Se tal premissa for verdadeira para três gerações, o quanto não seria para trinta ou trinta mil. Inexiste, desta forma, uma escala parental valorativa, em que o self melhora em caráter à medida que da árvore genealógica brota um novo galho. Inexiste tal coisa. Monstros e heróis ou mal existem ou se intercalam sem nenhuma linearidade cronológica, cuja regra é a do ser ordinário, nem monstro nem herói. Um tataravô monstro teve um pai ordinário, tal como o bisneto, cuja irmã não sonha ser mãe e cujos pais não foram chamados nem por ele nem por ela de heróis. As variações são infinitas, porque há muito do caráter do self que é próprio, não se herda, mas se trai; há limites para a educação de valores que vêm do berço, amiúde mais estreitos do que se imagina. Percebo o quanto isso soa anti-família, mas sustento a posição por confiar que um indivíduo é um ser antes de ser um filho; que filho não é a continuação do pai nem o pai o é do avô, e o mesmo vale para a filha, a mãe e a avó. Cada ser tem seu valor intrínseco, não atribuível aos genitores.
A branquitude que alimenta o racismo também deve ser combatida por brancos antirracistas, cônscios de que o protagonismo nesta história é preto. A luta não tem fim, na medida em que o racismo extirpado por lei permanece cravado na mente de homens vis, sendo a vileza humana, embora de modo algum atribuível à genealogia. Neste sentido, acabar com o racismo é tarefa colossal. A esperança talvez resida na substituição geracional, no trabalho educativo que nos permite crer que os filhos não serão como os pais, embora eles sempre possam ser piores.
O debate é válido no âmbito das políticas de reparação histórica. Culpar os filhos pelo que os pais fizeram é um erro. Culpar os filhos pelo que os tataravós fizeram é ignorância. E as recíprocas são verdadeiras. Desconsiderar o elemento racial do processo histórico, por sua vez, também é ignorância. A ignomínia é uma criação humana. A maior delas teve, pelo menos nos últimos séculos, nítido recorte racial. A vítima tem cor e é preta. A culpa é branca, com a ressalva de que não é só branca, nem todo branco, por que o é, é culpado. E nenhuma raça está livre da vileza humana. Brancos exterminaram brancos no holocausto, também sob a justificativa racial.
Reforço minha crença inabalável nos fins. Daqui a cem anos ninguém saberá quem nós fomos. Ao fim desta curta trajetória, acabou, acabou tudo e para sempre. E se terá valido a pena ou não, o que importa, não viveremos para lamentar. De toda forma, que idiotice é essa de buscar dar significado à vida? O prussiano lá tinha razão: cada um delimita o quanto de verdade é capaz de suportar. Os que buscam sentido, suportam pouco. E são os mais desorientados. A morte é definitiva e invencível. Quem ousar desafiar tal axioma encontrará em mim um rival. Deus é para os fracos que não conseguem suportar o fim. O fim é minha paixão. A ele dedico minha vida e a ele entrego minha alma, se tal merda existir.
Rejeito também toda e qualquer forma de nativismo nacionalista, incluindo a cultural, coisa que cedo ou tarde descamba em xenofobia. Identidades nacionais foram construídas à base de violentos processos de unificação após séculos de colonização. As diferenças sociais no interior de todas as sociedades capitalistas são de tamanha magnitude que é ridículo ignorá-las em favor do ideal de uma grande família nacional, e muito me espanta que ainda haja incautos que acreditem nesta piada. Não me peçam para ser mais solidário com o meu vizinho do que com o estrangeiro. Não me peçam para amar mais meu filho do que a um desconhecido. De todas as formas de amar, a pior é a seletiva, e a melhor é a desapegada, a única que reconhece no outro sua completude antes de nos conhecer. Não somos especiais. Somos tão inúteis para pretender mudar alguém. Só se pode mudar para si mesmo. Em nome de pátria povos se mataram. A troco de quê? De uma coroa na cabeça de tiranos ávidos por novas conquistas e impostos para sustentar sua realeza. Todo o luxo custeado pelos pobres. Aos milordes que não podem ver um cadafalso que já disparam atrás do carrasco para dar início ao espetáculo de fazer rolar o pescoço alheio, só tenho a dizer que o seu amor à pátria vem dessa tradição: patriotismo é masmorra. No Brasil, defender trabalhador já foi crime de ordem pública. É antipatriótico. Eu acho ótimo que seja, porque eu sou mesmo antipatriótico. Detesto o meu e qualquer outro país, mas ainda assim acho que detesto mais o Brasil. Aqui pátria para pobre é cadeia e chumbo. Este país é um monumento à desigualdade, e me pedem para amá-lo. Ainda hei de queimar sua bandeira em praça pública sob vaias e esporros dos seus filhos miseráveis a quem o país nunca lhes deu nada, não obstante, persistem em gratidão em nome de símbolos incutidos num imaginário que a mim não convence, pois eu só confio na realidade material, esta que diante dos meus olhos se revela na forma de pobreza, indiferença e brutalidade.
Movimentos independentistas são por essência progressistas. São os progressistas que querem se livrar do jugo de um soberano injusto. Independência é rompimento, é separação. Os tradicionalistas não gostam de separar; ao contrário: gostam de unidade, de comunhão, e toleram as comunhões mais despóticas para evitar a separação. Por isso deploram o divórcio. O divórcio agride a moral conservadora baseada num princípio de continuidade indivisível. Ela quer que tudo dure para sempre. Combater a tradição é quebrar a eternidade. É a luta escatológica. Mesmo quando o divórcio é garantido pela via legal, a tradição cria um universo paralelo no qual forja uma continuidade irreal, pois não aceita a morte. A tradição mente para si mesma para não ter de encarar a realidade da separação. Não consegue lidar com o fim, pois o fim destrói sua moral, corrói seus princípios, desmorona sua estrutura. Finge que o casamento não acabou, que os pares continuarão sendo amigos, simplesmente porque a ideia de término lhe é insuportável e brutal. Mas é a realidade. O divórcio é o fim de uma união. Não uma nova etapa, não um amadurecimento; é o fim em si. Trate de aceitá-lo. As coisas terminam, é fatal. Para tudo há de ter um fim. O divórcio não foi um avanço civilizatório alcançado pela comunidade geral. Errado. O divórcio é uma conquista das mulheres progressistas. É uma vitória delas e só delas, que não deve ser compartilhada com ninguém, pois foram elas que brigaram para legalizá-lo. No que dependesse da tradição, das tradicionalistas inclusive, dizer sim no altar seria um compromisso sagrado e inquebrantável para o resto desta vida e por toda a eternidade, tamanha a obsessão desta ideologia por eternidade. Ora, se não é esta a razão de ser da tradição: eternizar tudo. Por isso, tudo o que leva a um fim a fere de morte. Quero estar vivo para ver o fim massacrar a vida eterna. Para que os momentos sejam vividos e despedaçados. Há que vivê-los, fazê-los e soltá-los. Fazer e soltar. Deixar ir. Para que não sejam rememorados. Para que corroam no tempo e escapem à cognição.
Antes de prosseguir com a sessão de descarrego de frustrações incontidas, devo adverti-los que o motivo por que tenho me dedicado a escrever este relato sem pé nem cabeça não é outro senão despertar em vossas mentes o anseio pela luta na qual eu acredito e em que eu espero um dia poder contar com a sua disposição ao meu lado. É a luta pela dignidade, pela igualdade de direitos e oportunidades, pela desconcentração da riqueza, por garantias básicas. Se você acredita que este mundo é possível e cabe a nós ousarmos construí-lo, isso já basta para deixarmos nossas diferenças de lado porque este só motivo já nos perfila em torno de um objeto amplo que é a própria razão do meu existir. Vão te incutir que tal ideal é utópico. Vão te desviar do que realmente importa. Não permita que assim o seja. Seja firme na sua crença e tente o máximo que puder dela não tergiversar. Porque, se é utopia acreditar que a sociedade pode ser mais justa e que nós somos os responsáveis por assim torná-la, se isso é utopia, também o é a crença — e aqui eu reforço que é uma crença, é uma religião — a idéia de que a sociedade é fruto da livre espontaneidade de um emaranhado de indivíduos com interesses dispersos que competem entre si pela preferência dos demais. Utopia por utopia, nada mais utópico e irracional que a invisibilidade voluntária. Uma mão que age em defesa dos interesses de nós sabemos quem; não dos nossos. Da minha parte, se algum dia essa mão me tocar, hei de decepá-la e entregá-la de graça à primeira fada liberal pintada de rosa, todas elas são rosas e liberais. Você deve questionar por quais métodos pretendemos alcançar o nosso ideal. Em primeiro lugar, admito que este tipo de idealismo está mesmo ultrapassado. Já me dei por conformado que não estarei nesta terra para ver as mudanças nas quais acredito valer a pena o sacrifício, mas nem por isso deixarei de acreditar nelas. Morrerei acreditando. Morreria antes se não acreditasse. Não há um só dia, talvez nem duas horas que minha mente me dê alguma trégua. É uma tormenta ad eternum. Você saber que poderia ter feito mais, que você é culpado por não tê-lo feito. Como privilegiado, fracassei nas mínimas competências e este é um arrependimento que carregarei até o caixão. Eu te digo que se pipocasse uma revolução agora ali na rua, levantaria da minha cadeira, cortaria essa nossa conversa mole, pegaria um fuzil e iria pro pau. Te juro que essa é a minha maior vontade. Nada me faria sentir mais realizado. E morreria não como mártir, porque isso é ficção tradicional, mas como os meus milhares de ídolos anônimos que foram massacrados pelo Estado opressor e cujas histórias a história varreu, mas pra mim isso pouco importa. Quanto mais grandiloqüente, mais fantasioso. O que importa não é ser lembrado por muitos, vaidade das almas pequenas. O que importa é você com você mesmo saber o que você fez e por quê. Afinal, os demônios são individuais. Cada um terá de lidar com os seus. Mas para a minha frustração — hoje é só frustração, no passado já foi desespero — não há e nem haverá nenhuma revolução. Falta-nos coragem. Somos a geração mais covarde que já habitou esta terra. O agronegócio bate recorde de safra ano após ano e a fome nunca acaba. No Brasil agrário, um pleonasmo, o Estado esteve sempre à serviço dos fazendeiros. Na Colônia, a Coroa protegia os senhores de engenho de inúmeras formas. Protegia-os da concorrência com os pequenos proprietários mandando queimar plantações para valorizar a commodity; protegia o patrimônio dos fazendeiros contra a execução por dívidas em favor do próprio erário real. E o que mudou? Todos os dias vemos na tevê que a porra do agro carrega o país nas costas, e pode haver mentira maior? É um país inteiro de cócoras chupando pau de fazendeiro metido a homem simples do campo. Há mais imóveis ociosos do que gente na rua à espera de um. Um terço da população mundial vive abaixo da linha da pobreza. O Brasil é a oitava economia do mundo e um quarto da população é miserável, um sexto vive no esgoto. Educação básica é artigo de luxo no século XXI. O direito de expor o que se pensa é muito nobre e parece ensejar os mais cálidos debates, todos muito pertinentes, mas o mesmo não se nota quando a coisa migra para outros direitos ainda mais básicos de cidadania, a começar pelo direito a um teto. A propriedade virou algo tão sagrado, que em nome dela se perpetuam toda sorte de abusos e vilipêndios com a força da lei, em ondas de despejos que abafam as últimas faíscas de humanidade, se é que estas ainda ardem em revoltas nestes tempos brutos em que empatia virou frescura e a liberdade individual ganha todo um arcabouço de superioridade moral. E o indignante é que nada disso causa uma indignação em massa, só indignações individuais como esta, ou seja, inúteis, porque sozinho o indivíduo é tão fraco como um graveto, tão distante da onipotência invocada pelas fadinhas liberais.
O conformismo é, no final das contas, a arma daqueles que têm horror a mudanças. Eles precisam que nos acomodemos com as coisas do jeito que estão. E mascaram essa aversão à inovação com atributos virtuosos como “ceticismo” e “precaução”, quando no fundo de nada têm de céticos, porque são místicos, e sua cautela, na verdade, é covardia. Aferrados ao passado agrário, ecoam o que seus avós já diziam, benditos sejam os frutos desse solo sagrado! Mas de quem é o solo? Enxotam sem-terras na bala, chamando-os de invasores, quando no passado invadiram e grilaram terras devolutas, pois em algum momento a terra foi cercada, ela não nasceu privada. Como bebês frágeis que se recusam a crescer, a se desprender dos pais e a encarar o próprio destino. Daí o apego ao sobrenome, ao brasão familiar, à nobiliarquia. Oferecem o colo da tradição aos que temem os novos tempos. Não vivem sem títulos e honrarias e temem enfrentar o mundo com as próprias pernas. Sentir-se-iam tão sozinhos e impotentes… Não, deixe-me escorar no colo do papai eternamente! Vem, mamãe, vem aqui me dar de mamar mais um pouco.
Eu não vou mudar o mundo com palavras. Com palavras não se faz revolução. As condições para uma estão dadas há muito tempo, só não as vê quem não quer, a alienação é poderosíssima; o que faltam são os agentes. A culpa é da nossa geração fraca. A geração menos inconformista, menos indignada, menos furiosa, menos obcecada, menos interessada em mudar, todos atributos que são exigidos dia e noite de quem quer romper com o passado, zerar o jogo e começar de novo com regras novas. A cada dia confio menos no diálogo e na diplomacia, e a cada dia me custa admitir que não há saída fora da violência. Revoluções mudaram o mundo, não as convenções. A Bastilha não foi tombada no parlamento, mas nas ruas. A escravidão não acabou com um acordo de cavalheiros. No que depender dos cavalheiros, a tartaruga é revolucionária, então é preciso ir com calma e cautela. Não duvido de que nos dias atuais nem a escravidão geraria repulsa e revolta, afinal ela persiste em versões modernas, sobretudo no campo. Nesse ponto, até eu que detesto recorrer ao passado me vejo obrigado a consentir que a forma mais vil da tirania humana, que não poderia ter existido em tempo algum e não obstante existiu por tanto tempo e em todos os lugares, ao menos no passado foi enfrentada por revolucionários abolicionistas, homens que hoje em dia já não nascem mais. É isso. Esta é a era da covardia, da frouxidão, do conformismo, da pusilanimidade, subprodutos do egoísmo e da compressão mental a que somos submetidos, esta que nos faz crer no mantra da onipotência individual, essa fadinha meiga que às vezes vem disfarçada de auto-ajuda, que infla nossa autoconfiança, que vive martelando no ego que um dia também poderemos ser o que ela se tornou, basta querer e persistir, não aceitar as rejeições, encarar as dificuldades e ser resiliente, e não desistir jamais, e aí, reunindo todas essas virtudes ascéticas e com uma determinação colossal, então ninguém nos impedirá de vencer, para alcançar os mais fúteis objetivos e, parabéns, você pode se considerar um vencedor. É a fada da vitória seletiva. Ela elege um vencedor, ergue seu braço no palco e te expõe à multidão de idiotas como um caso de sucesso, que inspirador! Acredite nela, você também pode. Liberte o animal que existe dentro de você e deixe que ele conduza as suas ações, deixe que o cegue, que o guie no caminho das grandes conquistas, às quais ninguém poderá te subtrair, são suas, você batalhou por elas, e graças a elas os perdedores cairão aos pés da fada e farão o que ela disser para um dia estar no seu lugar.
É com violência que se alcança mudanças profundas. Sem radicalizar, só se obtém concessões, que de tão tímidas questiono-me quem são os reais beneficiários. Não. Sem a fúria interna, já fomos derrotados. Sem revolta, seremos esmagados — mas o seremos com os adornos da democracia, essa coisa meiga com o aval da qual toda sorte de exploração tem sido impingida contra os humilhados e ofendidos. Seremos esmagados sem parecer que fomos, com a porta da esperança entreaberta, para quem sabe no futuro termos uma nova chance — que de nova não terá nada, será tão velha e gasta quanto as anteriores e mais uma vez nos dirão para postergar o nosso sonho, o nosso ideal. E nós somos os culpados. Não nos desviemos da culpa. Porque somos nós que não confiamos o bastante na causa, que questionamos nossas crenças, duvidamos da nossa capacidade e preferimos aguardar um momento mais propício. Hesitamos. Hesitamos sempre. Aceitamos adiar mais uma vez — e eu me pergunto por mais quantas vezes — o sonho pelo qual todos nós cremos que vale a pena lutar e que é a razão do nosso existir. Quando é, afinal, que ousaremos fazer diferente? Eu não morrerei em paz sem tentar. Nós temos que acreditar. Temos que amar nosso objetivo. Temos que viver. E viver é lutar por um ideal possível e concretizá-lo. Essa é a única razão verdadeira para respirar.
Foi preciso um Thomas Paine impelir os americanos a romper em definitivo com os colonizadores para os EUA se tornarem uma nação de verdade. Tivessem seguido a cautela dos colonos e dos tories lealistas, essa raça que rouba sua terra, saqueia seu tesouro, estupra sua mulher, escraviza sua gente, te impõe outra fé e depois te chama de irmão, filhos de um só destino — o que eles definiram –; tivessem sido cautelosos e reticentes em romper com tal destino colonial, o que teria sido dos EUA? Seriam sabujos da Inglaterra, como os são todos os membros da Commonwealth, ou, ao contrário, seriam o que a pátria-mãe fora um dia, um Império sem rei? Teriam sequer os estados se unido numa nação? Não. Um país só pode ser grande, e só merece ser chamado de nação, se cortar o quanto antes qualquer laço que o une a outro, porque este não é um laço de amizade, mas de sujeição, e começar a construir a sua história, do seu jeito e à sua maneira, absolutamente livre de qualquer ingerência externa. Um país só é país com independência. E independência real é independência total. Quem respeita Porto Rico, coitado? É um protetorado. Um protetorado é como uma criança de dezesseis anos. Goza de algumas liberdades. Pode fazer isso, isso, isso, mas não aquilo. Aquilo não. Para aquilo precisa pedir permissão ao papai. Dá para tratar com uma criança de dezesseis anos sem o aval do papai? Isso é um protetorado.
Inexiste lembrança gloriosa de um passado em comum entre colônia e metrópole. A glória foi ter rompido com o passado. E rompimento, meu irmão, não é “vamos deixar de lado as desavenças e celebrar os traços culturais que nos une”. Não. Nada nos une. Do momento em que se grita independência, nunca mais teremos nada em comum. Rompimento é: “sou independente, faço a minha história, vai embora daqui e nunca mais ouse interferir na minha terra”. Jamais se esqueça de que fomos nós, os explorados, e você, o explorador. Eu jamais me esquecerei. E agradeça por não sair daqui morto, porque é o que você merece: colonizador merece um belo açoite e uma bela fogueira, aquela que arde bem devagar e te faz implorar para o seu rei vir te salvar. Implore. Implore e diga que ele será o próximo. E não me diga que isso é rancor, porque é muito mais. Reservo-me o direito de guardar pelo tempo que me aprouver todo o ódio contra colonizadores. No que dependessem do meu perdão cristão, já estariam queimando no inferno santo há muito tempo, desculpem-me o pleonasmo, já que todo inferno é santo. O passado só deve servir de revolta às colônias, para que aprendam com o que já foram um dia, gabem-se de não serem mais e gabem-se mais de não terem infligido aos outros a ignomínia da qual foram vítimas por séculos e a que os nossos colonos hoje nos pedem para deixar de lado com um aperto de mão e com uma irmandade que só pode existir em corações sacripantas. No meu, é ódio eterno. Eu teria vergonha por ter nascido num país colonizador. Vergonha mesmo. Asco. Preferiria ser apátrida. Lutaria para me tornar mais um iconoclasta esquecido. Queimaria castelos, pinturas, móveis, brasões e trajes coloniais, enfiaria o garfo que o príncipe comeu sua última refeição no fígado do seu descendente vivo mais velho, numa tentativa inútil de apagar os vestígios do tempo, mas ainda assim uma tentativa melhor do que a inação que mais parece conivência. De iconoclastia meu Brasil carece. Hei de ver um dia o museu imperial arder em chamas e hei de assassinar com as mãos republicanas os descendentes da monarquia atroz que se dedicam a reescrever a história com versões favoráveis à desonra de seus antepassados escravocratas. E o próximo que me disser que Pedro Segundo era um homem avançado, respondo que avanço é e sempre há de ser a deusa que derruba monarquias, a deusa tricolor que infundiu no mundo os mais lindos ideais que só uma República pode prover: igualdade e fraternidade, muito antes, e sempre acima, da liberdade. Troco toda minha liberdade por uma fração de igualdade. Entrego minha liberdade de graça ao soberano para que ele imponha igualdade na terra. Custe o que custar, vidas, famílias, pátrias, honra e espírito, o diabo, mas a igualdade precisa reinar entre os homens da terra.

